abandono

estou mas nao necessariamente sou. eu sai do trem assim como voce mandou, mas o vazio continua. olhei por atraves das pilastras e vi o ceu cinza. o vento que trazia e cobria o azul. com frio nos pes, caminhei sem entender mas sentia. sentia que estava perto e que o fim se aproximava, assim como sorrateiro um vento que te arrepia por tras dos olhos. subi as escadas rolantes, observei as pessoas passando / um zumbido no ouvido.

eu fiz tudo o que voce mandou fazer, mas nada aconteceu. eu so fui embora, exatamente da mesma maneira que voce foi.

eu, pequeno, olhei para cima e vi as pessoas passando. meu pescoco doi se eu olhar muito tempo pra frente / ando olhando para o chao mesmo voce me dizendo pra nao. eu nao sei como sair, mas gostaria de sair. voce saiu. eu, sozinho como voce, fui chutado ate lamber minhas proprias feridas. sei que a gente nao tem muito a ver, mas eu sei que no fundo a gente sofreu pelo mesmo. o abandono. voce gostaria que eu fosse mais do que isso, enquanto eu sei que voce nao me deixaria ser mais do que isso.

eu nao sei como sair, mas gostaria de sair. o caminho que fiz, o sol gelado do outono, o abandono e a incompreensao. tudo latejava ao mesmo tempo, mesmo eu querendo melhorar.

eu vi a paisagem pela janela e nao pude deixar de notar como tudo estava mais vazio. desde entao, nao houve mais sol no meio da chuva / nao havia mais arco-iris / nao havia mais reflexo nas pocas d`agua / nao havia mais sentido para preencher qualquer vazio que fosse. o vazio se tornou familiar. por entre os vidros das lojas eu via as historias, mas nao podia ouvi-las. voce me disse que as coisas iam mudar da proxima vez que melhorassem, mas nada aconteceu.

aos poucos percebi que tudo que voce me dizia era mentira, mas voce so repetia o comportamento que tive toda minha vida. nao havia porque voce me contar verdades se tudo que te ensinei foi a contar mentiras. e entao as pecas cairam e formaram o quebra cabeca. eu o destrui e voce nunca mais pode me contar mentiras, mas dai tudo acabou.

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história sobre haroldo/capitulo tres

calibre 27 sete oito quatro outono primavera verao e aos poucos me desfiz. olhei pro ceu vi o azul mas nao vi que cor preenchia meus olhos. eu nao estava olhando. descobri que jamais fui.

peço desculpas, antes de tudo. sinto muito, mas esses olhos que te olham sao os olhos da lixeira da esquina.

ele me disse:
-que diabos
-eu sei, nao dá
-dá não
-pô é isso mesmo então
-é, fazer o que
-foi mal
-foi mal

olhei pro oceano e vi que era tarde. frio. choveu em algum momento, mas não importa, já chove há muito tempo. nunca parou de chover, não é? você quer me convencer o contrário.

aos poucos a casa esvaziou-se. névoa. nos dias em que a luz acabava eu percebia que não tinha nada, a luz é que tinha tudo. aos poucos aceitei, deixei de lado e acabei nem conseguindo mais chorar.

-ô cara, tá empacando aí
-ô, foi mal
-mas amigo, me diz o seguinte
-oi
-por que é que a sua cara ta rabiscada
-eu rabisquei
-puts

-bom, faz parte

um dia fez silencio, e daí em diante nunca mais ouvi nada. quando acordava parecia que ainda estava dormindo. as coisas pararam de fazer sentido, eu nao ouvia o vento nem os passaros nem ninguem passando na rua. parece que todo mundo ficou em casa / parece que chovia novamente e cinza.

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história sobre haroldo/capitulo dois

chuvisco primavera

era um dia meio acinzentado. era tudo triste. neblina.

somos tristes paisagens.

chovia, era primavera. eu sentei na varanda, pus meu queixo sobre o muro e observei. via as nuvens se movendo, via as gotas de chuva caindo nas folhas de árvore. aos poucos anoiteceu e vi nos postes que ainda chuviscava. eu queria sair.

-haroldo, voce quer sair?
-sim.

e saímos. acho que fumamos um beck, mas fazia silencio. acho que no fundo éramos assim tão pertinhos que ficávamos tristes juntos. se depois ficassemos felizes, ficaríamos juntos. paramos para nos beijar na passarela. eu conseguia sentir o gosto daquela noite. era bom. era terreno.

-e então, o que vai rolar agora?
-vamo fumar um beck.
-outro?
-é claro

fumamos. depois assistimos um filme e ela dormiu, fiz um miojo de madrugada e comi do lado dela, parecia uma pluma dormindo. ainda chuviscava.

sentei no chão à frente do sofá e encostei a cabeça perto dela, já bastava, acabei dormindo. quando acordei, ainda chuviscava. o céu estava cinza.

-esse tempo é legal, mas me deprime
-é, também acho. quer um toddy?
-sim.

aos poucos fui percebendo que alguma coisa seguia seu curso. aos poucos, consegui entender o quanto eu fazia mal à ela, sem mesmo saber. ela sucumbia. os dias cinzas não cessariam.

-e então, o que voce vai fazer hoje?
-voce acha que isso vai acabar um dia?
-isso o que?
-isso… essa coisa. a gente.
-…
-eu acho que tô te deprimindo. a vida já é bem ruim, eu sou um acomodado. na real eu gosto mesmo é dessa fossa que eu me enfiei, mas levo todo mundo junto. queria me afastar pra não machucar ninguém, mas
-haroldo, voce é um bosta mesmo

silêncio

-é, eu sei

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história sobre haroldo/capitulo um

primeiramente quando olhei para o horizonte, pensei:

“mas que diabos afinal estou fazendo aqui? minha solidão me sabota e eu caio porque quero. a minha tristeza também é meu alimento. me alimento de momentos em que permaneço em silêncio, sofrendo. as outras pessoas percebem e isto é parte de estar triste.”

enquanto for primavera, não saberei ao certo dizer o que se passa em meu coração. minha vida, pouco a pouco passa a pertencer menos a mim. hoje, meu coração é muito mais espiritual do que material – e ainda assim sou um lixo. digo isso porque minha existencia é limitada. sou apenas um ser humano. sou quase nada.

aquela tarde se foi, e aos poucos se fez azul como noite. fui até a praia, eu queria fumar um beck. ando sempre por essa cidade e sinto muita solidão, na real porque aqui é uma cidade pequena e quase não tem ninguém na rua de noite. sempre olho os postes, a paisagem é uma coisa intangível, poucas vezes tentei falar sobre isso, mas é aquela sensação de solidão escrita na imagem. o poste alaranjado iluminando a rua completamente vazia e de fundo o vento da beira da praia batendo, as folhas do chão se mexendo e o barulho do mar ricocheteando no canto do ouvido. o barulho do mar nunca foi embora. ouço em todos os lugares, na rua ou no quarto tentando dormir.

quando voltei pra casa tomei um banho, abri o armário do banheiro pra que o espelho ficasse virado pra parede, sequei o cabelo e sentei pra ler. logo aí lembrei de que tudo tinha acabado. parece que foi quando caiu a ficha. olhei pra rua, vi que ninguém passava ali há muitas horas. tava tudo vazio.

percebi que estive há muitos anos sozinho aqui nesta casa e não me toquei que você tinha ido embora. pouco a pouco, fui sucumbindo a ideia de que tudo tinha acabado. olhava pro relógio e nunca chegava a hora, mas de repente já tinha passado. diversos dias passei sentado à cama com a janela aberta, tentando ver se o sol andava, mas não andava. mas de repente já tinha passado e era noite.

não haviam retratos na casa. eu não lembrava mais, não conseguia me lembrar. tentava, mas não conseguia. procurei por fotos, não achei. não havia album de foto algum. a casa estava vazia, só tinha uma cama, geladeira, ventilador e chuveiro. percebi que o varal tinha caído há tempos.

um dia, de repente, percebi que já não podia mais continuar. senti muito sono e quis dormir, mas ainda eram duas tarde. observei o sol por um instante e vi que se movia. sorri, e quando percebi, já tinha passado. já tinha acabado.

morri.

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nothing feels good

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se o universo me permitisse,
daria minha vida de aniversario pra voce nao ter que sentir o peso da sua.

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tudo tem sempre gosto de fim

coleciono musicas pra morrer ouvindo
coleciono musicas pra ouvir morrendo

tudo tem sempre um gosto de fim

raspando a superfície,
buscando luz
-já não tenho mais unhas

minha historia pessoal:
gostaria de ter lido a sinopse

a tristeza é um vício como qualquer outro,
mas esse é legalizado e romantizado.
é até bonito,
mas é mais nocivo do que a maconha.

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everything has an end, even sadness

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