meu sangue escorre pelos braços que me seguram,
debruçado em um peito que desconheço
a avenida paulista se desfazendo em lantejoulas de luzes que não mais consigo enxergar com clareza
-assim como o meu coração há todo este tempo.

caminhando por detalhes que observei,
vivi nada… quase nada daquilo que sonhei.

meu mundo começa a se desfazer em glitches que caem do céu,
as imagens que piscam em meus olhos tocam pedaços de músicas que chorei ouvindo (talvez o único momento em que eu realmente me sentisse vivo nestes últimos anos).

sinto que vou morrer. sinto que vou amarelar nos álbuns de família, sinto que minhas roupas vão continuar na mesma gaveta de casa, e que em algum determinado dia minha mãe chorará ao abrir a gaveta para botá-la no sol junto às roupas.

sinto que os cantos da casa que um dia cresci gritando e correndo de minha mãe servirão de um silêncio que fará as pessoas tristes, que as fará chorar.

no fim, o risco que deixo na terra, os pés que marquei na areia e as memórias que terão de mim serão assombrações,
serão o projétil vazio que atravessou o coração de alguém; uma arma carregada, um gatilho que ecoa enquanto uma lágrima cai.

e enquanto me desfaço no asfalto quente de uma noite de verão
as cigarras continuam cantando no bairro do limão.

aos poucos minhas memórias e as músicas que chorei se desfazem
meus olhos desfalecem no cansaço e na certeza de que morrerei,
e de que este é o meu fim.

(adeus número 48)

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Comenta aí, mano!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s