531 segundos

“True love leaves no traces”

Olhei pela janela, eram cinco da manhã. O ônibus, vazio. Todo mundo dormindo; uma tranquilidade perturbadora. O oceano de fundo, os navios boiando, o cais pouco iluminado, o vento do mar. Já nem sei mais quanto tempo faz desde a última vez que disse que te amo.

Rodopiando de tão bêbado, ficava olhando através da sua imagem ― dormindo encostadinha no vidro, numa tranquilidade que fazia com que o coração ficasse macio de se sentir.

― Me dá um cigarro.
― Dou ― e estendeu o maço de Marlboro Light até a mão dela.

“True love leaves no traces”

O cigarro queimava, as cinzas voavam e se desfaziam com o resto de sujeira e areia. Olhava para a direita: os postes acesos, a beira da praia vazia. Alguém gritando com a voz rouca; chuto dizer que era meu coração.

Lembro de ter fechado os olhos. Esperando Godot. Esperando tudo acontecer. Basicamente um abraço apertado. Deitar no seu ombro. Vai passar.

Thom Yorke, vai tomar no seu cu.

― Hahahaha
― O quê?
― Você
― Eu o quê?
― Sei lá eu, porra
― Oxi!
― Casa comigo?
― Não
― Dorme comigo?
― Não estou com sono
― Deixa eu deitar no seu ombro?
― Tô com torcicolo
― Deixa eu beijar seu rosto?
― Tô com sarampo
― Deixa eu… hum―
― Não.

Ok.

Olhei no relógio, dezesseis graus célsius portiollis.

― Você tá bêbado.
― E daí?
― Vou desaparecer
― Sei.

Ninguém acredita em mim. Um dia eu me mato, tomo uma cartela inteira de qualquer merda e acabo com essa palhaçada. Um dia eu desapareço, me jogo no rio de São Vicente cantando Milton Nascimento. Foda-se.

Dias e dias passam. Deitado. “Vai passar, é o fluxo natural das coisas”, “Uhum”, “Você tá bem?”, “Uhum”, “Desculpa”, “Uhum”.

― Uhum
― Uhum o quê?
― Relaxa, cara
― Vai tomar no seu cu
― Uhum
― Me mata?

As formigas passando, o dia nascendo, os pássaros gorjeando. Porque lá os pássaros não gorjeiam como aqui. Meu coração não gorjeia como lá; deus do céu! Que merda me tornei?

Um eco. Eco, eco, eco.

Acho que é amor mesmo. Vai ser legal lembrar um dia.

Um dia.

“True love leaves no traces”

Nenhum vestígio.

― Há quanto tempo não digo que te amo?
―531 segundos.

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