A aniquilação do eu

Com os olhos fechados e a mente incapaz de criar qualquer frase, juntando com o fato de não podê-lo, ganhei um beijo de Estela; talvez o mais sofrido e amargo de todos os tempos, mas ao mesmo tempo um beijo que me fazia querer chorar de alegria. Amo Estela; amo-a mais do que tudo e faria qualquer coisa para continuar ao lado dela, ao mesmo tempo tenho total noção de que isso me fará morrer aos poucos.

― Raul?… eu posso abrir os olhos agora?
― Pode, apaguei a luz.

Estela abriu os olhos e nos beijamos; o pouco do gosto de normalidade ou nostalgia não era forte o suficiente para esconder a amargura que boiava em minha boca, em minha saliva. Pergunto-me se Estela sentia todo esse amargo vindo da minha boca, se, depois que acordou, sentiu gosto das lágrimas salgadas que engoli durante toda a noite ao seu lado, mas tenho quase certeza que não. Estela dormiu bem, e eu não dormi nada; fechar os olhos no escuro para de maneira alguma, me ver ― ou não, eis aqui o problema. Estela ainda fechava os olhos, como que instintivamente, toda vez que estava prestes a ver-se cara a cara comigo. A aniquilação do eu tinha uma ajuda muito especial… da pessoa que eu mais amo.

Depois de noite tão subjetiva e sofrida, voltei para casa; estávamos juntos outra vez, mas não podia sentir um abraço completo, não podia sentir que dois braços me envolviam ― se é que ao menos um me envolvia.

Um pedaço, grande ou não, caía. Eu era como um cigarro caminhando para ser guimba, e creio que hoje sou guimba, mas fui cigarro por todo o tempo em que estive junto com Estela, e aos poucos, fiz-me cinza, e igualmente cinza, minhas cinzas voaram com o vento. Hoje sou guimba.

A começar ― a aniquilação do eu ― por nunca mais olhar no espelho, até porque, não simpatizava muito com essa criação; o ódio que tinha por mim mesmo era grande o suficiente para refletir-se nisso: não aguentar ver-me no espelho. Mas não é só sobre aparência, olhar no espelho é o ato de perceber o presente de si mesmo, do que nós atualmente somos. “É isso que eu virei, então? Essas rugas, esse cabelo, essa barba por fazer e esses olhos inchados de tanto chorar?” me perguntava. E depois ― continuando na aniquilação do eu ― eu acabaria com fotos minhas, e se possível, não olharia em mais nenhuma delas. E então me privaria do direito de pensar em dizer algo e, como disse o amigo Renato, retirar todos os “eu” desnecessários nas frases. Não sei a metafísica desta aniquilação, se nasceu a partir do dia em que decidi acabar comigo mesmo para ter Estela, ou se realmente já sentia isso antes, quando tomava ciência do grande lixo que eu era e sou… e pouco me importa a merda da metafísica.

A cada ‘eu’ que escrevo nestas páginas, deslizo a caneta e risco-os, e, aos poucos, vou me doando totalmente para o fim. É só o início, e por ser o início desta vida circular, também é o fim.

Estou de volta no meu quarto, mas a sensação é mesma ― talvez pior. As paredes tingidas de mesma cor, o vidro que um dia embaçou com o sexo que aqui dentro permeou; não, hoje não. O que é esse quarto? O que são essas paredes, essas cores? O que são essas notas que o piano toca? E se eu morresse agora? Vocês não saberiam nem metade. Por que eu chorei tanto? Por que fui jogado tantas vezes contra a parede… por que ganhei a habilidade de me olhar no espelho e reconhecer meus erros? A sensação é a mesma, mas pior. Existo como cinza, como cinzas.

Tomo um banho, mudo a roupa e vou para o trabalho; sem um minuto dormido, não posso fechar os olhos, incrivelmente não pelo fato de, a qualquer instante, poder cair em sonhos, mas é que a cada vez que fecho os olhos, curiosamente, choro. Às vezes só consigo chorar, se de fato, fechar os olhos… e percebo que neste fato mora a simbologia de ser o único momento em que posso apenas sentir o que sou, apenas sentir. Ser o que sou é o único motivo pelo qual choro hoje.

― Fala Raul! Bom dia, como é que vai… melhorou?
― Oi seu Guilherme, bom dia… eu melhorei e vou bem… e como vai o senhor?
― Eu vou bem também… mas me diz, você está realmente bem? Pela sua cara não parece nem um pouco.
― É que eu não consegui dormir muito bem, seu Guilherme. Você sabe… às vezes a vida dá dessas.
― Eu sei bem como é, Raul. Na verdade, eu não sei o que é ter uma noite de sono boa desde os meus dez anos.
― Pesadelos?
― Sim.
― Então estamos quites.

O silêncio se fez no escritório. Podia sentir cada nota do Ryuichi Sakamoto tocando ali, podia ouvir claramente os nossos suspiros, as nossas mortes diárias. “Eu vivo e morro todos os dias em São Paulo”. Seu Guilherme, no entanto, era muito mais velho do que eu, e parecia animar-se muito mais, na verdade, ele era muito mais forte, acredito. O mais curioso sobre aquele minuto que se passou, foi como já me acostumava a agir de maneira destrutiva: olhando para o chão para que o seu Guilherme não olhasse no meu rosto, como assim queria Estela. Sem querer olhei-o de soslaio, e sucedeu que o seu Guilherme chorava naquele minuto. O silêncio se desfez quando me encontrei outra vez no trabalho, e lembrei que, infelizmente, a vida tinha que seguir; seu Guilherme fungava as lágrimas que tinha chorado e eu continuava olhando o chão. Ao perceber, de soslaio, que o seu Guilherme não mais chorava e só esperava uma reação minha, envergonhei-me e pedi desculpas.

― Não peça desculpas, Raul. Você pode olhar pra mim.

E olhei para o seu Guilherme, não querendo fazê-lo hábito, olhei-o, e pedi desculpas outra vez. Ele sorriu e se voltou para seu trabalho. Eu morri mais uma vez e voltei para o meu.

― Estela?
― Raul… onde você tá? Eu quero te ver.
― Eu tô saindo do trabalho, vamos nos ver.
― Meia hora no Terminal Santo Amaro.
― Firmeza.

Tomei o ônibus e segui rumo ao Terminal, ainda sem um minuto dormido e com o azedo na garganta; lentamente caminhava por dentre os murmúrios da cidade de São Paulo, e olhava de boca em boca, como falavam, como especulavam… e como as mãos se moviam e gesticulavam meio às conversas que boiavam no vento, e eu, completamente perdido e absorto nesta ausência dos pontos cardiais, subi no ônibus e sentei. Porquanto olhava pela janela, percebi num piscar de olhos que já me encontrava no Terminal. Suficientemente atordoado com o quão rápido o ônibus caminhou e perdido como sempre, procurei Estela, atravessando plataformas, subindo as escadas; procurava Estela e não a encontrava de maneira alguma e lembrei-me que não seria capaz de encontrá-la, pois era ela quem deveria encontrar-me. Sentei-me ao banco e permaneci olhando o chão, assim Estela não se intimidaria a aproximar-se de mim e então poderia abraçá-la forte.

Porquanto me encontrava perdido em tais pensamentos, senti em meu ombro uma mão que não afagava, mas apenas me encontrava; não era a mão Estela, supus, e como ainda não tinha certeza, permanecia imóvel, olhando para o chão, esperando que de alguma maneira viesse daquela mão algo que me orientasse meio aos murmúrios, mas nada disto aconteceu e pouco a pouco meu coração se apertava e a falta de ar inebriava-me o peito, causando-me um vazio enorme, que aos poucos dava as mãos com o vazio existencial que palpitava na língua. Pouco a pouco, amedrontado como uma criança, fui me entregando ao medo e tentando vencê-lo como uma barata foge de seu predador: tudo; aos poucos virava os olhos e entortava o pescoço para buscar o corpo daquela mão que me tocava, e sucedeu de encontrar na origem daquela mão a origem de mim mesmo… era minha mãe. Olhei para ela surpreso e imensamente aliviado, perguntei-lhe o que fazia ali, mas nada ela disse, concentrando-se em fazer apenas uma coisa: olhar-me com reprovação tal qual uma mãe que acaba de saber de uma travessura de seu moleque. De início não me senti intimidado, mas aos poucos e conforme ia me comunicando com ela ― na verdade, apenas tentando e nada conseguindo ― ia tomando conta do meu peito a mesma falta de ar de alguns minutos atrás, e aos poucos fui sucumbindo àquela lembrança.

Lembro-me, certa vez, apenas de ter feito travessura tal qual resultou em algo que jamais saiu de meu peito… foi quando minha mãe recusou-se a falar comigo por longos dois dias ou mais, e juntamente com o fato de encontrar-se enferma, suscitava naquela casa em que só nós dois habitávamos ― meu irmão vivia ali, mas raramente estava em casa ― um clima azulado ― e disso lembro-me com clareza incomparável ― de luzes apagadas e uma televisão que ecoava pela casa vazia. Eu, uma criança perdida e amedrontada por possivelmente ter pedido sua mãe, permanecia ajoelhado ao pé da cama de minha mãe implorando-lhe por palavras, por uma comunicação, por um olhar, que não o de reprovação. E lembro-me de ali ter permanecido, ajoelhado ao chão e com a cabeça caída aos seus pés cobertos pelo seu cobertor azulado, não só pela luz da televisão que falava baixinho, mas também pela cor naturalmente azul de seu cobertor. Dormi ― importante suscitar ― sentindo o seu cheiro naquele cobertor, e, ademais, com aquela memória inconsciente de que possivelmente podia ter perdido minha mãe e, lentamente caminhei para o onírico onde tive um pesadelo exatamente igual ao que atualmente acontecia; minha mãe não se comunicava, não falava, não fazia nada, que não me olhar com severo e único olhar de reprovação, tal pesadelo marcou-me, pois ao acordar percebia-me em tal situação. Desde então os sonhos me amedrontam.

Em um piscar de olhos encontrei-me acordado de um recente pesadelo, mas ainda vivendo-o; ainda estava na Rua Alba e tinha longos quarenta minutos até o Terminal Santo Amaro. E foi à luz do crepúsculo que temi outra vez aquele pesadelo, os postes que corriam pela janela iluminavam-me o rosto, mas não me iluminavam o coração desesperado; calmamente os olhos se desfaziam em sono, mas abriam-se de súbito como que numa batida entre duas realidades indesejáveis. O desconforto e o sono juntavam-se e num piscar de olhos, via-me teletransportado por dentre o itinerário até o Terminal Santo Amaro, quando tomei conta estava já na Washington Luís, um segundo depois na Interlagos e num piscar de olhos já estava no Terminal Santo Amaro, onde desci e aguardei ansiosamente Estela, apenas olhando para o chão. Porquanto soprava o vento frio do crepúsculo por dentre as plataformas, Renato apareceu de súbito e disse-me: “Quem é esse cara na tua sombra?”, mas não pude respondê-lo, porque logo em seguida do lado oposto surgiu Estela abraçando-me. O desespero foi tanto que instintivamente quis olhá-la no rosto, mas ela rapidamente cobriu os olhos e me desculpei por tê-lo feito, ela disse não ter problema com uma voz que parecia sorrir, animei-me um pouco e comprei algo para bebermos.

― Mas afinal, por que a porra do Terminal Santo Amaro? Não tem nada aqui, só eu que moro perto, e nem é tão perto assim.
― Não sei, mas você se lembra de que nós nos conhecemos aqui, né?
― Lembro, poxa… como não me lembraria? Você era tão bonitinha, e pensar que tudo que eu queria no começo era escrever sobre a sua bunda.
― E hoje… você ainda sente vontade de escrever sobre mim, como nos velhos tempos?
― Não sei… não pego no caderno de pensamentos tem muito tempo, sinceramente, acho que perdi um pouco das nossas origens, me desculpe por isso, mas passamos por tanto… e acho que isso me desgastou um pouco.
― Mas isso quer dizer que você gosta menos de mim? ― perguntou em um tom choroso.
― Não… não, poxa vida. É que me esqueci, sabe? Foi tanto que passamos… tanto sofrimento, tanta coisa ruim, mas eu quero consertar isso, sabe? Até porque já sinto saudade de fazê-lo, entende? ― e mentia.
― Então fico feliz!

Parecia sorrir outra vez e então me abraçou… para conseguinte beijar-me… eu a beijei, mas receava que pudesse sentir o amargo. Ao fim do beijo parecia não tê-lo sentido de fato, e por isso alegrei-me e entristeci-me… porque uma hora ou outra haveria de senti-lo.

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2 respostas para A aniquilação do eu

  1. Carolina disse:

    que bonito. e triste

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