A casa – capítulo II

Sem firulinhas, sem dribles, sem bosta nenhuma que vá te levar algum lugar que não o desta história. Eu sou o Camilo, hoje o dia data 18 de setembro de 1980, risco estas linhas azuis-claras sentado no carro do seu Alceu, para vocês que não sabem: meu pai. Estamos indo à praia de Ipanema, o feriado escaldante do Rio de Janeiro traz toda a família à praia, do mesmo jeitinho que vemos em temporada. Sem réguas, papai dirige; o samba no toca-fitas, meus olhos por muitas vezes se distraem do caderno: é a paisagem ambulante do Rio. Dentre a esquerda e a direita este carro vai para a direita: eu, no entanto, para a esquerda – e assim gradativamente vou me perdendo do humor feriadesco e/ou qualquer coisa que represente a alegria de estar na praia jogando bola com o seu pai ou brincando com a sua família e irmãos. Gripado no sol, aquela sensação de que você não devia estar ali; alheio aos murmúrios eu consigo apenas pensar em como odeio toda essa palhaçada. A minha motivação para estar sozinho. Egocentrismo ou não, sei lá que merda é essa – e pouco me importa saber.

– Mãe, vou pegar uma água de coco.

– Fine, filhinho, mas não se perca, a praia está lotada-

– Já sei, mon cherie amour.

Na verdade eu não queria água de coco. Vocês sabem.

            No calçadão de Ipanema – o famoso, mas nem tão extraordinário, afinal, é só a merda de um calçadão – eu sentei e fiquei olhando aquele monte de gente que ia e vinha, este tipo de situação não funciona muito bem para formular uma história, portanto, vou me distanciar de contar os fatos das meninas lindíssimas as quais jurei amor eterno só de olhar uma vez. Porra, mas não dá pra não falar. Sério. Vai tomar no cu, como uma mina dessas sai de casa sem um anel no dedo, assim, olhando um homem largado num banco em pleno feriado ensolarado? Quarenta graus no Rio de Janeiro e eu aqui suando mais de amores e nervoso do que qualquer outra coisa.

De súbito os carros na avenida pararam, um homem saiu da Brasília amarela e disparou a socar que nem louco a cara de um maluco dentro de outra Brasília. O cara do banco passageiro saiu e foi em direção do maluco que tava socando e a briga começou. O cara que inicialmente estava socando levou o primeiro, e em seguida tirou uma trinta e oito do bolso, atirando em cheio na garganta do passageiro, o motorista que inicialmente foi bombado de soco na cara já jazia derrotado de tanto soco que levou: o sangue escorria pelo nariz e quando o homem, após atirar, voltou-se para trás a fim de entrar no carro e sumir, o motorista escondia-se dentre os braços com medo de qualquer reação mundana. Medo de tudo. Medo.

Eu jazia boquiaberto, de camarote para uma humilhação em público: um espancamento e um homicídio. Quinze anos de idade, já contava cento e cinquenta punhetas batidas (dentre elas, sessenta por cento mal batidas) e minha primeira paixão jazia morta no chão,

a vida.

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