Poema para o fim de um expediente

No terminal rodoviário Barra Funda
com os cabelos brancos e lágrimas nos olhos
o pai se despedia da filha
abraçava-a, contornava seu corpo com as mãos trêmulas, os braços descascados
demorava a soltá-la; sussurrava ao ouvido, apalpava-lhe as costas, como um último adeus
lhe aconselhava, lhe beijava as bochechas, corava e chorava.

Por conseguinte abaixava-se sentindo dor, mas a felicidade de abraçar a neta fazia-o esquecer
abaixava-se, portanto, para abraçar sua pequena e levantá-la nos braços trêmulos
sorria com lágrimas que ainda secavam
e a pequena gritava de alegria.

Ele entrou no ônibus e se despediu
as mesmas mãos trêmulas acenavam incessantemente até que o ônibus sumiu no escuro do fim do expediente.

De cima, a tudo via
do outro lado alguém se despedia de uma bituca de cigarro
de outro, alguém se despedia de míseros dois reais em troca de alguns pães de queijo
alguém se despedia do amor de sua vida, alguém se despedia de algo importante.

Eu também me despedia
no entanto, de algo nada importante;
dali de cima me joguei
e despedi-me única e exclusivamente
de minha vida.

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