Poema para dois mil e treze

I.

Geralmente nos orientamos pelas horas
Às vezes por pessoas ou momentos.

Às vezes percebemos que é hora de acordar quando o relógio bate o meio-dia
às vezes percebemos que é hora de acordar porque o sonho que sonhamos tornou-se pesadelo.

Às vezes percebemos que é hora de ir embora porque já é tarde
ou porque é cedo e passamos a noite inteira na rua.

Podemos, no entanto, perceber que é hora de ir embora porque não nos sentimos bem-vindos onde estamos.

Hoje eu me oriento pelas horas
sei que ao meio-dia devo estar de pé
E me oriento pelas pessoas
sei que todo sonho que quis viver tornou-se pesadelo

E, portanto
acordo.

E ao acordar, percebo:
não há sonho que se sonhar.

Os olhos embaçados se orientam pelo que possivelmente é conhecido
mas, tendo acordado do sonho que não mais vivia
não conheço nada,
e assim, só tenho ao nada para observar.

Calmamente levanto a cabeça, o tronco, os braços
e lentamente os ombros caem
e com eles
as lágrimas.

Lentamente a quimera que guardo em meu coração
se desfaz mergulhando rumo ao chão
e o escuro do quarto apenas observa
observa.

Lentamente a respiração desanda
o coração se desfaz
e se mistura com o abismo
a única coisa presente ali.

II.

Com os pés no chão
e o frio de não saber onde está o chinelo
o escuro do quarto observa
e o vento calmamente fecha as portas da casa.

Os ombros deitados
os olhos salgados
dou-me de cara com o mar da noite
e vou à cozinha.

Abro a geladeira
nada.
Olho pela janela
nada.

Sento-me à mesa
quatro cadeiras
eu, eu, eu e eu.

O primeiro eu senta-se cansado e olha para o futuro
nele nada vê.
E o seu sonho de ter uma banda, de fazer psicologia ou de viajar pro Japão? – lhe é perguntado
Ele responde: “Se desfez, agora me oriento pelas horas”.

O segundo eu senta-se e olha para a luz
nela nada vê.
E o seu sonho de ter um apartamento perto do metrô, de ter um filho pra falar tudo que o seu pai te falou ou até mesmo de viver como seus pais viveram? – lhe é perguntado
Ele responde: “Se desfez, agora me oriento pelas horas”.

O terceiro eu está com a cabeça deitada na mesa e chora
dentre as lágrimas nada vê.
E o seu sonho de ser o super-homem que o Nietzsche dizia? Aquele teu sonho de ser o homem das paredes imaginárias de Jung? E aquele teu sonho de ser Sidarta? – lhe é perguntado
Ele responde: “Se desfez, agora me oriento pelas horas”.

O quarto eu senta-se cansado olhando para a luz e deitado com a cabeça na mesa, chora
O futuro lhe vê, e pergunta:
E o seu sonho de escrever um livro, de ir tomar café de madrugada em Minas Gerais ou de ter um álbum de fotos?
Ele, infelizmente, não vê o futuro e, portanto não o ouve, tampouco o responde.

Levanta-se e vai para a cama, deita a cabeça e cerra os olhos
perde-se em mais uma noite de sonhos
e contadas as horas
acorda ao meio-dia.

E ao acordar, percebe:
não há sonho que se sonhar.

Os olhos embaçados se orientam pelo que possivelmente é conhecido
mas, tendo acordado do sonho que não mais vivia
não conhece nada,
e assim, só tem ao nada para observar.

Calmamente levanta a cabeça, o tronco, os braços
e lentamente os ombros caem
e com eles
as lágrimas.

Lentamente a quimera que guarda em seu coração
se desfaz mergulhando rumo ao chão
e o escuro do quarto apenas observa
observa.

Lentamente a respiração desanda
o coração se desfaz
e se mistura com o abismo

a única coisa presente ali.

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2 respostas para Poema para dois mil e treze

  1. Emily disse:

    BRAVO!!!!! eu que escrevia alguns poemas, gerei um poeta de verdade ;)

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