Fechar os olhos no escuro

            Meia-noite, decidi te ligar. Deitado na cama, cansado de esperar esse seu tempo escroto e essa sua mania idiota de não decidir nada, senti que eu devia fazer algo, mesmo que não houvesse vontade alguma dentro de mim, que não a de ficar aqui, deitado no escuro, chorando e ouvindo as músicas que me lembram justamente o fato de que eu já fui algo pra você, e hoje, sou nada.

O telefone chama.

― Alô? ― é a sua voz. Que saudade, cacete.

― Oi, Estela, sou eu.

― Eu quem? ― caralho, essa desgraçada já se esqueceu de mim.

― O Raul.

Sua voz muda de tom.

― Ah, oi Raul. ― parece que agora desceu um desgosto pela garganta dela, e pelo meu também, justamente pelo fato de eu acabar de me dar conta que eu ainda sou o mesmo lixo indesejável.

― Oi, Estela. Tudo bem?

― Tudo indo, e contigo?

― Tudo.

O silêncio se faz na linha, dois ouvidos que falam, duas bocas que escutam, nós continuamos vazios. Sempre fomos.

― Então… ― comecei a falar, sem saber nem um pouco o que dizer ― como que tá sua mãe? ― por que eu perguntei dessa velha filha da puta? Eu odeio a sua mãe.

― Ela tá bem, essas horas está dormindo ― e bocejou ― eu devia estar também.

― É… eu devia estar também, daqui a pouco tenho que estar de pé pro meu novo emprego.

― Ah, você arrumou um novo emprego? Que legal Raul, fico feliz por você.

Tenho certeza que você não fica feliz bosta nenhuma.

― Obrigado, é um emprego mais ou menos, eu vou trabalhar lá com o tio de um amigo meu, vou ajudar ele no escritório dele, vai dar pra tirar um dinheiro legal, sobreviver e tal.

― Sei, sei. ― disse com aquele desinteresse de sempre.

― Então, e você, como tá indo tudo… seus pensamentos… a faculdade?

― Tá tudo indo na mesma de sempre.

Filha da puta do caralho.

― Bom… Estela, você sabe… eu não liguei à toa, não foi pra falar do meu emprego―

― Raul, eu sei onde você quer chegar… mas eu ainda não sei o que fazer, sinceramente.

― Eu imaginei… é que, você sabe… eu penso em você todas as noites ainda. Tem uma blusa sua aqui em casa, e você sabe que eu sinto saudade.

― Eu sei.

― E você não tem nada em mente?

― Eu não sei, sinceramente; eu estou confusa.

O silêncio pairou e o meu peito gelou outra vez. Eu sei bem, eu sei bem no que vai dar essa merda… e é o que eu sempre temi. Lá se vão anos e anos jogados no lixo, tanto dinheiro que gastei com essa filha da puta… tanta merda que enfiei goela abaixo pra suportar, pra continuar, pra ser o que eu devia ser desde o início… mas eu sabia, eu sabia, eu não ia aguentar.

― Tudo bem, você me liga qualquer coisa?

― Ligo sim.

Eu sei que você não vai me ligar.

            São exatas seis horas da manhã, eu morro de frio na minha cama e não quero por nada nesse mundo levantar dessa cama; há tempos já não tenho vontade de sair do meu quarto, de fazer algo, que não chorar, mas eu infelizmente tenho que voltar a viver. Infelizmente.

Um banho quente, pego tudo que preciso, boto na mochila e vamos lá. Saí de casa, liguei o MP3 e me senti um bocado esperançoso. Peguei o busão, são quarenta minutos daqui até o metrô, dá pra ouvir o Animals do This Town Need Guns bem tranquilo; mesmo lembrando a Estela, arrisco. É meu álbum predileto pra fossa. O celular toca. E numa mensagem da Estela, leio:

“Raul, eu sei que eu sou uma idiota; ainda estou acordada, tive pesadelos a noite toda e não consigo parar de pensar em você.”

O coração palpitou, e nesse meio tempo, outra chegou:

“Raul, eu te amo, mas tem algo que eu preciso dizer a você. Não é nada fácil de dizer, mas eu sinto que não posso mais continuar olhando na sua cara, mas eu ainda te amo. Sinceramente, não sei o que fazer, não sei nem como me entender, só sei que ainda quero deitar no seu peito, mas nunca mais olhar pra sua cara.”

Eu só podia rir, e foi exatamente o que eu fiz: ri.

Respondi:

“Você quer que eu use um saco na cabeça?”

A resposta veio alguns minutos depois:

“É sério Raul, eu ainda quero você, eu amo você mais do que qualquer outra coisa nessa bosta toda que é a minha vida, mas não quero, simplesmente não quero mais olhar pra sua cara, não quero mais ouvir a sua voz, não quero.”

Eu não pude responder; aquilo só acabou mais comigo, e se antes eu não tinha vontade de sair do quarto ou de parar de chorar, agora eu não tenho vontade mais de viver. Obrigado, Estela, você realmente me ama mais do que tudo.

Outra mensagem chegou alguns minutos depois:

“Eu sei, conversar por SMS é uma bosta. Vamos nos encontrar à tarde?”

Caralho, eu vou trabalhar.

“Vamos, que horas e onde?”

Suspirei. Vou fazer merda no meu novo trabalho outra vez.

“Às 17h no metrô Praça da Árvore.”

Feito. Vou olhar minha vida escorrer pelo ralo outra vez, mas não há nada mais gostoso do que isso.

― Então, seu Guilherme, eu acho que to meio ansioso pelo dia, não estou me sentindo muito bem, desculpa ter que fazer isso logo no primeiro dia, eu sei que não é nada legal da minha parte, mas eu realmente não quero fazer nada de errado, queria ir ao médico ver o que tenho.

― Fica tranquilo, Raul, eu tive isso no meu primeiro dia de emprego. Fica tranquilo, mas nem vai ao médico, porque isso eles não vão fazer nada, além de te dar um chá de cadeira de cinco horas, vai pra casa, filho. Descansa, bota sua cabeça no lugar e amanhã a gente trabalha como devemos, belê?

― Belê seu Guilherme. Você é nota dez, já vi que você vai ser o pai que eu nunca tive.

― Imagina, Raul. Vai descansar, rapaz.

            Dezessete horas, a tarde se desfaz nos murmúrios da catraca do metrô, eu espero inquieto, já ensaiando tudo aquilo que eu imagino que vou viver daqui pra frente: não falar nada, não ser nada. Aos poucos, vou a algo que já tenho nome na cabeça, que já sei exatamente o que é e que vou conhecer logo mais em breve. Uma mão toca o meu ombro.

― Não olha e não fala, Raul.

É a Estela. Reconheço sua voz, mas não sei se posso olhá-la no rosto, na verdade, ela não pode olhar no meu. Imóvel. Os murmúrios se espalham de direita à esquerda, os ouvidos não conhecem mais palavras conclusivas, é o mundo vivendo, e eu cada vez mais distante de estar vivo. Cheguei a certo ponto em que a minha vida se desfaz em murmúrios, no que nós sabemos da vida dos outros: nada. Ouvimos cá ou lá alguma frase: “É mesmo”, “E aí ele era tão bonito”, “O meu chefe é um filho da puta”. E o que eu sei de conclusivo sobre mim mesmo, os pensamentos que latejam? Não existem mais dilemas, pois não sei mais exatamente nada sobre mim, desiludido, sem voz, sem imagem, começa a aniquilação do eu.

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8 respostas para Fechar os olhos no escuro

  1. Nate Oliva disse:

    que foda, meu amiguinho, que foda.

  2. Ana Beatriz disse:

    esse primeiro capítulo já me prendeu. QUERO UM LIVRO!!!

  3. feffah disse:

    Você nunca para de me surpreender, não é?

  4. Gabrieli Lourenço. disse:

    Ecelente Adorei!!

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