Dezoito é menor que dez

É isso, acabou. Cheguei o mais longe onde podia; minhas pernas já me carregaram longe demais – e eu não posso continuar caminhando. Não, eu não aguento mais viver tudo isso e também não o quero. Não aguento mais acordar e ter que fazer algo. Eu não quero nada, além de nada. Não quero ter que acordar e levantar da cama, não quero ter que acordar e ir trabalhar, ter algum saldo no banco, algo a fazer, não quero ter rotina, não quero ter que comer, não quero ter que dormir, não quero ter que acordar. Eu não quero nada além de nada. E assim os dias seguem sufocantes, eu sou um alguém e tenho que sê-lo, eu existo, eu tenho que fazer parte do que é ser alguém: ter algo, fazer algo. Não posso, simplesmente, ser nada? Eu não quero ser um homem, não quero ser uma mulher, não quero envelhecer, não quero ser feliz, nem triste. Eu não quero.

É confortável ser um nada e não ter nada além de nada. Talvez seja esse o motivo de tanta falta de ar, de tanta necessidade de chorar, talvez seja esse o porquê da vida não girar e não necessitar mais de nada. Eu queria ter morrido aos dez anos de idade, ou no segundo mês de gestação.

Olho para a parede e estampo nela com os meus olhos as lantejoulas das cores que me cobrem; na verdade, não. São os meus olhos que se estampam em lágrimas, e assim, todas as cores anteriores se formam lantejoulas nas lágrimas que preenchem meus olhos, meu rosto. No espelho, nada. Temo dizer que o espelho foi a pior invenção de toda a humanidade.

Todo o episódio se passa no meu quarto, deitado na minha cama. Penso, olhando para a parede, choro olhando para a parede, os braços atados e a chance enorme de sofrer uma metamorfose, transformando-me, quem sabe, em uma barata? Kafka bem o sabe, a barata é aquele nada que nós pisamos… e justamente só quando pisamos é que percebemos que há ali algo, é o “crac” que faz ao pisar nela, mas mesmo assim, e se víssemos a barata? Bom, ela continua sendo um nada e aí se tornaria mais divertido ainda pisar nela e ouvir o… “crac”.

Crac. O barulho de algo nada importante desaparecendo. A vida se desfaz, os dias se vão, tudo como uma ampulheta, a areia desce, o tempo passa, nós viramos, a areia desce, tudo continua igual; nós somos os pedaços das mesmas lágrimas, das mesmas madrugadas em claro que nos destroem, de toda a merda que nós fazemos com a nossa própria vida, e assim a vida segue. Ou não.

Crac.

Acabou.

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Comenta aí, mano!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s