O rio é um espelho

            O rio é um espelho e a minha vida é um engano. Vocês já sabem onde isso vai acabar, não é? Acostumem-se, um homem como eu não quer nada se não desistir de tudo, e para desistir de tudo é necessário querer nada, e eu a nada quero, se não me livrar de tudo. Eis, pois bem, o agouro deste homem que se arrepende de cada passo que deu desde seu primeiro mês de vida, eis, pois bem, o homem que aqui verte em lágrimas enquanto escreve as conclusões dos sofridos anos de vida.

O rio é um espelho, o vento é o bailarino, juntos vão dançando desde a foz até a nascente; eia! O garoto que corta o rio nadando para salvar um animalzinho que se afoga, eia, garoto! Vá, salve-o – gritava sua cabeça que vertia em milhões de pensamentos. O garoto salvou o pequeno animal e trouxe-lhe a solo fértil, era um pobre gatinho, um pequeno e pobre gatinho que havia sido abandonado à vida que corre como o rio e o vento; o garoto levou-lhe para casa e cuidou-lhe as feridas, acariciou-lhe antes de dormir e deu-lhe o que comer; pois bem, aí começou um pequeno laço entre esses dois animais. O pequeno garoto começava a viver uma nova vida: ao lado de seu pequeno companheiro, aquele gatinho que lhe acompanhava em todas as atividades de seu dia; quando saía para buscar leite junto às vacas logo aos albores do dia e também quando buscava água no poço para umedecer-lhes as gargantas, logo mais à tarde quando saíam para ir ao lago nadar; sim, o gato foi capaz de nadar, o pequeno garoto ensinou-lhe a rir com o rio, pois a qualquer momento poder-se-ia cair nele e afundar-se com todas as lembranças que ali pairavam. Mas tempos difíceis vieram, caros leitores, tempos difíceis! Com a seca, não só veio a desgraça que alastrou o gado daquela pequena fazenda, mas também a desgraça que alastrou a família que nada mais tinha a esperar meio ao nada! O pequeno gatinho também sofria desta mesma desgraça, a desgraça de não ter mais nada para se sorrir! E apenas rir do grotesco destino que o vento trouxe-lhes a dançar. A família, em um último suspiro de insanidade apanhou o gato e assou-o para alimentar-se meio àquela desgraça, mas nem assim foram capazes de sobreviver; pai e mãe daquele garoto morreram meio a seca, e sozinho o garoto selvagem reconstruiu sua vida ali. Ninguém sabe seu nome, nem mesmo ele; esqueceu-se. Falar? Nunca aprendera, mas sabia miar e rir. Sabia também nadar – e foi disso que sobreviveu. Tornou-se um pescador e ali continuou vivendo por muitos anos.

            De fato, o rio é um espelho, pois consigo hoje ver nele minha imagem, sou um homem que alcançou idade capaz de dar na ponta da língua amargura que consegue alcançar o coração; como uma doença que corre aos poucos e segue caminho para o mais vital órgão e dilacera, deturpa e acaba com tudo o que é sadio naquele corpo. Sim, esse sou eu, espelhado no rio que pra mim sempre foi como a vida. O rio é a vida, o vento é tudo que é ilógico e imprevisível e dá nome ao que nós estamos aqui acontecendo: é viver. Há algo em mim que nunca foi capaz de sair pelos orifícios, que nunca foi capaz de ser expirado a ninguém, nem às paredes, nem às árvores, nem aos pássaros que voam logo n’alvorada. Lembro-me de como saboreei o meu melhor amigo nos lábios, um gato preto que certa vez resgatei no rio a afogar-se. Nunca consegui entender exatamente a sensação gostosa que era ter nos lábios o seu melhor amigo, sentir-lhe descer a garganta, mastigar-lhe trinta vezes; isso não me incomodava; não a mim, porque o meu melhor amigo foi capaz de fazer-me sobreviver meio àquilo que eu jamais queria sobreviver. A sensação horrível, pois bem, não é ter-lhe dentro de mim, encostado junto à minh’alma, na verdade, a sensação horrível provém de ter sobrevivido ao que eu jamais queria ter, sequer participado: a vida. Eia, leitor! Pois se desespere, odeie-me! Sou um ser, pois bem, desprezível, detestável, digno de dó, mas é a isso que se resume tal vida que é esta que vivo, é a isto que se resume perder o nome de menino e ganhar o de homem, é a isto que se resume, pois bem, apenas miar. Ser um gato – nunca duvidem – é a pior coisa que existe nesta face terra.

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