Para todos vocês que duvidaram

            Para todos vocês que duvidaram eis aqui o homem; para todos vocês que insistiram em duvidar desta pessoa que vos fala, deste homem que aqui lhos clama um canto… E no linguajar popular: Chupa, anti! Sim, pois chupem, seus idiotas. Para todos que duvidaram da minha capacidade, sim, eu me superei. Bem lhos digo, para todos que duvidaram, sim, eu consegui cagar mais ainda a minha vida e agora ninguém pode mais me segurar. Saquei todo o dinheiro que o dinheiro disponibilizava como um suposto crédito, mais ou menos quinhentos reais que tinha lá disponível e ainda o dinheiro da minha rescisão do trabalho; agora como desempregado eu podia e tinha total condição de destruir a minha vida. No total foram mais de mil e quinhentos reais acumulados que eu decidi gastar e me esforçar ao máximo para cagar minha vida de vez.

Para início, fui ao mercado e gastei mais ou menos cento e vinte reais em “De Montão”, o pior salgadinho já produzido na face da terra, e em Pedra 90, algo que acabaria comigo como nunca antes. Voltei pra casa, abri todos os “De Montão” e joguei-os em uma tigela grande, coloquei-a ao lado do computador e sorri. Levantei, fui à cozinha e peguei uma jarra de vidro transparente, despejei ali o monte de Pedra 90 que eu havia comprado e coloquei ao lado do computador. Do lado esquerdo, uma jarra cheia de Pedra 90, do outro, uma tigela grande lotada de restos de salgadinho que eram o tal do “De montão”. Coloquei o fone, escolhi as piores músicas possíveis e comecei a acabar comigo mesmo naquela noite e madrugada de Setembro. Fui até às seis da manhã me destruindo com aquelas duas desgraças que me causaram náuseas, desgosto, vômitos… mas só isso não bastava. Meu dinheiro havia comprado as bebidas e a comida, e aí minha vida completava a festa que é, justamente, viver, com toda a tristeza que um homem podia ter no coração.

Acordei ainda bêbado e com muita vontade de vomitar, vesti o chinelo e decidi ir até Guarulhos na casa daquela menina que eu stalkeava pela internet; eu bem sabia onde ela morava, já tinha ido até a frente da casa dela só pra olhar pra janela dela; a que horas ela desligava mesmo as luzes? Não sei, acho que não sei nem o meu nome. Peguei o ônibus, segui caminho até Guarulhos e lá eu fiquei perguntando como chegava naquela casa, demorei pra descobrir e realmente só consegui chegar depois da bebedeira passar e de vomitar no canteiro ao lado dos Correios. Ninguém me informou nada, ninguém nem chegava perto – e eu bem entendia o porquê. Eu estava de chinelo, samba canção e uma blusa da Aeronáutica que meu pai comprou no brechó; isso sem citar o cheiro inescrupuloso que eu tinha no corpo, principalmente de pinga, de desgraça, de sofrimento. Os olhos inchados de tanto chorar, o cabelo sem lavar, oleoso, caindo nos olhos e chateando a vista. Cheguei a casa dela, bati na porta e aguardei que alguém me atendesse. A própria me atendeu e esboçou uma carinha de desgosto ao ver-me e sentir o meu cheiro. Não, caro leitor, aquela pequena não me conhecia, eu a amava secretamente, e foi ali que decidi contar:

– Eu te stalkeio tem uns tempos já, faz uns anos, na verdade; desculpa que eu estou todo zoado, mas é que eu tive uma noite difícil. Eu vim aqui porque eu estou com um plano muito bom pra acabar com a minha vida, aí eu estou tentando fazer tudo aquilo que mais poderia acabar comigo, ontem mesmo no bate papo eu convenci uma menina a não dar pra mim! Então uma dessas coisas era assumir que eu sou loucamente apaixonado pelos seus cabelos, pelos seus olhos, por todas as suas fotos na internet. Espero que você entenda e me ajude; tipo cuspindo na minha cara, me expulsando, chamando a polícia, qualquer coisa, mas que seja natural, claro, só quero deixar claro que você é maravilhosa e que eu praticamente te amo; que eu moraria no seu quintal só pra ficar te olhando de longe, mas eu nunca casaria com você, porque eu sou um lixo inescrupuloso.

O silêncio pairou. Ela me olhava e eu sorria um bocado. Fixou os olhos em mim por mais uns segundos e fechou a porta. Ermo na rua, pleno domingo em Guarulhos, o sol já caía. Domingo é um dia estranho pra mim, é um dia que eu não conheço; que eu nunca fiz nada. Queria um abraço. Na verdade eu queria morrer agora. “Por que você não abre essa porta e cospe na minha cara?”, pensei. Ela abriu a porta depois, eu ainda estava de pé ali na frente, pensando.

– Você é um completo idiota, disso até você tem noção.

E cuspiu na minha cara. Fechou a porta muito forte na minha cara. Comecei a chorar e fiquei ali por um tempo. Começou a chover, a noite caiu; decidi voltar pra casa porque é justamente a coisa que mais me destrói, que mais me faz sentir um ser medíocre, odiável, execrável, comparável a uma sacola de lixo. Arrependimento de chegar até aqui? Nenhum. Esmorecer desta batalha de me destruir? Nem se eu quisesse isso eu conseguiria o fazer. Quando eu tento o bom, o horrível acontece furtivamente; chega só analisando, escondido atrás de um arbusto, às vezes faz um barulhinho, eu ignoro, continuo andando e de repente, tum! Logo um chutão nas costas e aí eu caio de boca no chão, raspando toda minha cara. Levanto com os olhos cheios de lágrima e a boca ensanguentada. Tropecei e ainda estou em Guarulhos. Chove. Faz frio. Eu quero meu caixão.

Vi o sol nascer, a segunda-feira quietinha. Eu estava cada vez mais fundo na minha caminhada para o fim, mas ainda era só o começo. Olhei as horas no celular e depois o joguei no rio; ainda eram sete horas da manhã. “O que eu posso fazer mais pra cagar a minha vida?” me perguntava raspando os dedos no asfalto quente da av. Interlagos. Pertinho de casa, mas longe do que eu podia chamar de lar, de algo que podia me abraçar e me deixar descansar. Minha cama nunca foi párea pra minha mente que não me permitia descansar, que me trouxe pânico de sonhar. Meu maior desejo era ser alguém mais fácil de ser feliz, mas isso me era extremamente difícil. A vida é acumulativa, é uma loteria de merda; você vai vivendo, acumulando sacolas e sacolas de bosta que, no fim, vão ser jogadas em cima do seu caixão e fechar a sua conexão com o mundo. Estacam uma lápide na direção da sua cabeça guardada dentro do caixão e nunca mais vão sentir sua falta, de vez em quando um cachorro vai mijar no seu nome inteiro ali escrito naquela bosta de pedra, mas você não mais vai ser parte desse mundo, suas fotografias vão se amarelar nos álbuns e você nunca mais vai fazer mal a ninguém, principalmente a si mesmo, porque estará mortinho da silva. Tive uma ideia e fui pra Guarulhos outra vez.

Peguei o ônibus sentido Jabaquara e fui tão feliz! Nem sabiam vocês, mas essa conclusão anterior me desenhou um enorme e lindo sorriso no rosto! Eu ia contar a ela, sim, eu ia acabar de vez com a minha vida. Gritava com a cabeça para fora do ônibus, o dia foi desenhando ensolarado, as palavras iam se perdendo com o vento e eu alegre, gritando, saltando. Cheguei a casa dela, bati outra vez na porta, mas dessa vez sorrindo. Ela me olhou e eu não a deixei falar:

– Você nem sabe! Decidi acabar com a minha vida. Vim te contar porque você é a única pessoa que nunca soube da minha existência e que nunca se machucou por minha causa. Eu fico feliz, severamente feliz porque vou embora desse mundo sem te machucar, afinal você não me conhece! O que você sabe de mim além de eu ser um completo idiota e saber disso?! Nada! E por isso… e é exatamente por isso que eu te amo. E é exatamente por isso que vim aqui dizer-lhe que me vou indo, e é bem isso; fui, adeus!

Virei e corri como uma criança nos campos de milho da sua casa; corri como nunca com aquele sorriso incomparável no rosto em direção a um rio que morava ali perto. Agradeci a mim mesmo; eu estava no fim da minha existência e tinha cagado o máximo possível comigo mesmo, obrigado! É nesse rio que eu mergulho com o maior dos sorrisos que já tive desenhado nesse rosto medíocre – e é com essa mediocridade toda agora que vou para algum lugar que não conheço. Os pássaros cantavam, o sol queimava a vista e a molecada jogava bola; os murmúrios se perderam meio ao murmurar d’água nos meus ouvidos, a respiração borbulhava rumo à superfície; calma e tranquilamente afundei rumo ao eterno prazer de não estar mais entre vocês.

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Uma resposta para Para todos vocês que duvidaram

  1. Emily disse:

    nuss!!!!!!!!!!

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