Eu tentei me despedir e ela nem ouviu

            Gritavam as luzes vermelhas à noite no caos daquele peito escurecido. Os pés entortados de tanto andar sem rumo, o coração palpitando de tanto os olhos chorarem, as juntas cediam, os olhos inchados de tanto chorar, o sangue escorrendo da mão que havia acabado de se machucar e o homem, uma fera prestes a cair morta meio ao trânsito caótico de São Paulo, tentou se despedir e ela nem ouviu.

Eu nunca tinha entendido bem o porquê dos meus hábitos tão ruins, da mania constante de sumir à noite, andar a esmo por toda a cidade que acabava comigo e me fazia ser cada vez mais difícil respirar; não entendia bem o porquê de eu ser algo tão ruim pra mim. Sim, o homem é lobo do homem, eu cheguei a essa conclusão. Homo homini lupus, bem diz a frase no latim. Tudo começou na estação Paraíso e como ouvir: “Próxima estação: Paraíso” me fazia doer o peito como nunca, como me trazia lágrimas aos olhos lembrar aqueles tempos, sim, de fato um dia a estação Paraíso foi-me um paraíso, mas hoje em dia me é um inferno, me é tudo aquilo que me destrói – e, infelizmente, transformei minha vida isso. Eu tentei me despedir e ela nem ouviu, tentei me despedir da vida quando ela acabou por ir embora, e não foi por menos, eu realmente fiz de tudo para que ela escorregasse pelas minhas mãos e caísse no ralo com destino único: para bem longe de mim.

Desci na estação Paraíso, caminhei até a saída e ouvia já as buzinas latejando na dor de cabeça. Dipirona de merda. Abaixei a cabeça, caminhando sem querer ver nenhum rosto, não aguentava mais ver ninguém. Eu, na verdade, nunca me senti inteiramente digno de olhar no rosto de ninguém enquanto caminhava sozinho na rua. Foram poucas as vezes que eu realmente me tocava que podia olhar alguém que eu desconhecia nos olhos – e foi justamente um dia em que eu me preocupei muito em ver no rosto das pessoas se elas eram felizes, sem sucesso, eu não entendia como era a expressão da felicidade. Particularidade minha, caso vocês não saibam: esqueci como são as expressões, na verdade, decidi esquecê-las, decidi, pois bem, nunca mais tentar ver nos olhos de um alguém o que era ser feliz, na verdade, como era ser feliz. Desaprendi o compassar do coração, desaprendi como caminhar sem tropeçar um pé no outro; desaprendi a preencher a mim mesmo, desaprendi a dormir bem e acordar com alguma vontade de viver, porque afinal, eu havia desaprendido o mais essencial: a viver.

Eu tentei me despedir e ela nem ouviu, foi embora caminhando sem olhar os olhos de um alguém, talvez minha vida não fosse digna de nenhum outro alguém, e por isso imagino que hoje esteja perdida dentre os becos escuros e as buzinas latejantes de São Paulo. Se você está em algum lugar por aí, saiba bem, eu não sinto nem um pouco a sua falta, na verdade, sinto que você pode ser muito feliz – longe de mim.

Texto inspirado na obra “Eu tentei me despedir e ela nem ouviu” do Raul Teodoro:

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