O pássaro

Assim que me mudei para São Paulo tive sérios problemas para saber exatamente em que ponto descer na ida para o trabalho; sempre me confundia com um ponto que era defronte a um parque onde uma criançada costumava brincar e o em seguida, que era defronte a outro parque que tinha muitos pássaros -e era o certo (só fui perceber essa peculiaridade muito tempo depois, e aí então que aprendi a diferenciar os dois).

Depois de ter aprendido –e demorei a fazê-lo– acabei criando muita amizade com umas crianças, eram todas fabulosas e sinceras, não sabiam da minha vida, obviamente, mas tinham enorme carinho pela minha constante presença; comecei a descer sempre no ponto errado para conversar com algumas delas, brincar um pouco, rir e contar histórias que eram mentiras, mas que entretinham. Também criei enorme carinho pelo parque dos pássaros porque quando tirava minhas pausas só podia ir até lá, voltaria atrasado se fosse ao parque dos garotos, e, ademais, já era tarde e as crianças não estariam por lá. Há uma peculiaridade em mim que me faz criar tanto amor por essas coisas pequenas e superficiais – o canto dos pássaros, a amizade com crianças – e lhos digo o que é. Passo os dias com uma dificuldade enorme de respirar e uma vontade incessante de chorar, o porquê, pois bem, nunca vim a saber – e até hoje não o sei.

A história deveria começar em um dia aleatório desses, com enorme dor no peito, dificuldade para respirar e incessantes lágrimas que insistiam em fugir, mas não tinham forças para isso, tirei uma pausa e fui até o parque ali perto -justamente o dos pássaros. Sentei em um banco e refleti o quão inútil era minha existência para comigo mesmo e, ao apaixonar-me mais uma vez por uma mulher que por ali passava, percebi o quão inútil mais era a minha vida; se nem a mim poderia fazer feliz, seria incapaz de fazer qualquer outra pessoa, quer fosse uma mulher, um amigo – e não os tinha mais justamente por isso – ou seja lá o que for. Ou seja lá o que for? Sei bem que nesse dia fiquei sentado ao banco e amei os pássaros; acabava sempre por soltar uma lágrima com um sorriso no rosto – talvez fosse uma desculpa aceitável para não chorar de tristeza – e ali decidi que ia dedicar minha vida a um deles… a um pássaro. Voltei para a empresa, fui à mesa da minha supervisora e pedi minha demissão, ainda com enorme vontade de chorar e dificuldade de respirar, expliquei-lhe que gostaria de me demitir naquele exato instante e não pretendia ficar um minuto a mais. Levantei e fui embora para casa, no meio do caminho comprei uma linda gaiola e um pássaro azul, comprei-lhe comida também e tudo o que eu achava que ele precisava para ser feliz, mas infelizmente eu não entendia muito disso.

Os dias se passaram e eu adorava acordar com a vontade de ver se aquele pássaro já era feliz, se já cantava… mas nunca cantou. Sim, se passaram dias e dias que me doíam no peito e eu nunca vi aquele pássaro azul cantar. Nunca. E em um dia desses saí de casa, fui até o parque dos pássaros – no meio do caminho também cumprimentei as crianças do outro parque, sorri-lhes e contei-lhes que a vida corria bem – e lá me sentei e amei a vida por um instante, via os pássaros cantando, tão felizes! Tão belo era o canto daqueles pássaros… e me causava aquela enorme e incomparável vontade de chorar ao vê-los assim, ah, não queria nunca mais voltar para casa! Nunca! Como eu odiava voltar para casa… e naquele dia decidi que não voltaria. Deitei o corpo que me doía em um banco e ali quis dormir. Cochilei por uns instantes e uma bruma azul se desenhou nos meus sonhos: eu estava no quintal de casa, o céu era azul cintilante, as nuvens caminhavam depressa, o calor era extremamente gostoso… decidi sair por um instante de casa, avisei ao pássaro que iria até ali e logo voltaria, quando botei o pé na calçada o mundo mudou. O mundo girou três, quatro, cinco vezes em volta do sol, já haviam se passado dias, e, naquele mesmo instante, dei-me conta de que o meu pássaro precisava de mim, dei meia volta correndo e fui até ele, mas ele lá jazia morto, sua gaiola estava empoeirada e molhada, o chão úmido da chuva que caíra nos dias que se passaram e eu, ainda com enorme dor no peito… enorme vontade de chorar, acordei.

Me vi deitado, a chuva caía impiedosamente e eu ali naquele banco, nenhum pássaro mais estava ali, todos deviam estar… em casa. Em algum lugar eles tinham uma casa – e eu também tinha. Resolvi voltar para lá, corri como nunca buscando o meu pássaro, buscando querer fazê-lo feliz… e por fim, ao chegar em casa, vi que ele ainda não cantava. Não, ainda era um pássaro triste. Não adiantaram os esforços, pois eu não entendia como era ser feliz e não podia fazer a ninguém feliz. Não adiantou esperar o banho para chorar alto como nunca e ser silenciado pelo chuveiro, não adiantaram os travesseiros que se umedeciam com as lágrimas que eu silenciei ali. Não adiantou, ele ainda era triste.

Naquele momento decidi que eu o faria feliz. Abri gentilmente sua gaiola e o deixei voar, vi-o cantar brevemente, e, logo em seguida, vi-o sumir meio ao céu nublado e chuvoso que silenciava a cidade de São Paulo… e assim nunca mais vi meu pássaro.

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