Dezembro foi um mês que acabou comigo

Dezembro foi um mês que acabou comigo. O ano estava acabando e eu tinha certeza de que o próximo seria da mesma maneira: eu acabaria sozinho em casa, olhando para o teto e ouvindo as piores músicas possíveis pra acabar comigo. Quando eu acordei na manhã de natal, comecei a sentir enorme dor no peito, uma angústia enorme que se apoderava tudo que eu sentia, de todos os meus sentimentos; ao rir eu sabia que, a qualquer momento, poderia explodir em lágrimas e ao dormir ouvindo Joan of Arc, poderia ao mesmo tempo explodir em lágrimas e reencontrar-me no espelho com os olhos inchados de tanto chorar.

Na manhã de natal eu decidi que não comemoraria o natal, na verdade, não comemoraria nada dali em diante, não comemoraria nenhuma vitória, não comemoraria um emprego novo, não comemoraria o ano novo. Tudo seria a mesma merda, eu sei, eu cagaria com todos os meus amigos, destruiria a vida deles como eu faço com a minha, acabaria com as minhas paixões, ia magoá-las todas com a minha babaquice de nível incomparável, acabaria com a sanidade da minha mãe, de meu pai, acabaria com o dinheiro da minha família de tanto ficar com o abajur ligado à noite; arrumaria um emprego, lógico – e logo em seguida ia acabar fazendo merda, desistindo de acordar todos os dias com um propósito e então, me demitiria.

Se a meritocracia existisse na minha vida eu não teria o direito de levantar da cama, aliás, não teria direito de ter uma cama, talvez nem tivesse o direito de poder descansar. Desde os meus dez anos eu não consigo deitar a cabeça num travesseiro e descansar, desde os meus dez anos eu não consigo me olhar no espelho sem acabar chorando. Esses dias eu estive no bar aqui perto de casa e quebrei uma garrafa de cerveja nas mãos, voltei pra casa com o sangue pingando por cada lugar que eu passava, me olhei no espelho quando cheguei em casa, chorei, vomitei, deixei o sangue escorrer na pia; a água não cessava, tanto nos olhos quanto na torneira. Encharquei-me com palavras, o caderno se avermelhou e as palavras se perderem meio as gotículas de sangue que o papel bebia. Eu, como mero idiota que escreve, soube nesse momento que todas as palavras que eu escrevi ali seriam só minhas, eu bem sabia que aquilo seria o mais valioso que eu poderia escrever, que todo o sangue que o caderno chupou entortaria os olhos de qualquer um que lesse, porque era meu sangue, era eu naquelas palavras. Joguei álcool no corte, passei o resto da noite com o abajur ligado, olhando para o teto, ouvindo Joan of Arc e morrendo um pouco mais por dentro.

Decidi não comemorar mais nada, decidi não achar que eu podia ter algum mérito; decidi, na verdade, que eu não tinha nada além de nada e nunca teria.

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7 respostas para Dezembro foi um mês que acabou comigo

  1. Nate Oliva disse:

    Lindinho, como eu te adoro e te acho foda!
    s2

  2. Caroline disse:

    Apesar da unicidade do eu lírico, impossível não se identificar com a sensação de fracasso existencial que, acredito eu, recai sobre qualquer ser humano em algum momento da vida.
    Ótima leitura para o fim de noite/começo de madrugada.

    • vittie disse:

      Realmente, uma hora ou outra acaba caindo essa sensação de fracasso na existência humana.

      Obrigadaço pelo comentário!

  3. marcelosofo disse:

    Me lembrou muito aquele trecho de Tabacaria
    “Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
    Ótimo texto.

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