A única coisa impossível aconteceu

            Tive um sonho. Acordei às onze horas com a blusa colada no pescoço, o suor descendo por toda a face; as juntas me doíam e as costas, mais ainda… doíam como nunca, como se tivesse dormido a noite inteira em cima de um cadáver. Logo que acordei percebi a enorme dor que me acompanhava no peito, que me alentava o tum-tum do coração – e que me perseguiu o dia inteiro. Tomei um banho quente, que, normalmente far-me-ia bem em qualquer situação – e que me é de praxe logo que acordo –, mas não obtive o resultado ordinário de sempre, afinal, não era um dia ordinário.

Com o pé na rua e o sol na cabeça tudo começou a me esgoelar, as paisagens derretiam-se no horizonte, meus olhos caíam por medo de observar tudo ruir em uma grande massa horrível; se eu continuasse caminhando e olhando para todos os lugares que eu sempre olhei, São Paulo tornar-se-ia uma grande massa cinza; todos os prédios, todas as lojas, todos os carros, todas as pessoas. Com os olhos deitados ao chão, os meus pés permaneciam inertes, o chão continuava caindo atrás de mim e o sol me fazia transpirar como um bicho esdrúxulo que era eu. Os murmúrios ainda me acompanhavam: “Eu bem que disse” e riam, acrescentando: “Ele sempre soube, sempre soube.”. Passei a catraca da empresa, começava a ouvir os comentários: “Hoje peguei um cliente que era horrível”, “Pra mim caiu R$ 150 de condução, e pra você?”, chamei o elevador. Terceiro andar; caminhei para minha mesa, o headset na cabeça, um homem sem nada, as juntas cediam, Sentei. “Vitor, Cielo, Boa tarde, em que posso ajudar?” e lá vamos nós. Pausa oito; caminho para a máquina de café, levo o indicador e aperto. Café normal; ele desce, mexo a colher, tomo. Levo o indicador outra vez; café normal. Repeti o ato por quatro vezes e voltei para minha mesa. “Vitor, Cielo, Boa tarde, em que posso ajudar?”; o rio segue. Pausa oito. Dedo indicador. Café normal. Corri para o banheiro.

Eu e a privada. Vomito; um, dois, três, a porta abre, a porta fecha. Vomito; alguém dá risada, alguém sussurra: “Ele está vomitando, com certeza.”. Vomito outra vez, agora o dedo indicador vai à garganta para tirar-lhe tudo o que é aperto no peito. O branco da privada se desenha em marrom, lantejoulas do que restou dentro de mim, até que não tinha mais nada pra vomitar. Os joelhos se levantam rangendo, dedo indicador, café normal.

Abro o celular, nada. Abro a carteira, nada. Olho no espelho, nada. O tum-tum dói.

“Glaucia, eu quero me demitir”, ela me pergunta: “Vai cumprir aviso prévio?” e eu respondo: “Não”.

Entrei no elevador, a porta fechou e o elevador não andou. Olhei no espelho: nada. O elevador caiu; térreo. Cambaleante, atravessei a catraca, dobrei a esquina e caí no chão, vomitei junto às guimbas, minha antiga supervisora me olhou: “O que aconteceu?” e eu respondi: “Me demiti, acho que sonhei com o que eu sempre fiz” e ela perguntou: “O que você sempre fez?” e respondi: “Me senti um completo lixo.”.

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