A estação depois do inverno [+download PDF]

Download do conto em PDF

PRIMAVERA:

O vento soprava e a chuva caía, as moradas tremiam e as almas dos índios se agasalhavam nos corpos horrorizados pelo princípio do fim. No colchão de palha agonizava Driciele, a penúltima das mulheres ainda vivas na aldeia dos Perros; assim, os corações de toda a aldeia permaneciam frios, sem saber qual seria o próximo passo que a mãe Natureza daria. Driciele agonizava de um mal que atingira todas as mulheres que haviam vivido e morrido na aldeia dos Perros: a picada de uma cobra Viada. Rodeada de homens, apertando as mãos gigantes do pajé Teodoro e suplicando pela benção da mãe Natureza, Driciele aspirava o cheiro de toda sua vida na aldeia dos Perros, sentia o cheiro de toda sua infância a brincar na mata virgem, da morte de sua mãe, da primeira vez que havia feito sexo com um dos filhos dos Rodríguez, que em seu leito de morte, ainda a amara; também sentiu o cheiro da morte de todas as suas filhas, mortas também pela picada de uma Viada e agora observava a si mesma, fora de seu próprio corpo. Os prantos escorregavam-lhe pelo corpo inteiro, pois toda a aldeia estava outra vez, de luto. Não havia sobrado mais nenhuma mulher, senão a pequena filha de Driciele, Marianne, que ainda beirava os quatro meses de idade e já tinha de mamar numa cabra, pois havia perdido o alento de sua mãe.

Os anos se passaram e Marianne atingiu idade suficiente para ter filhos ― foi então que tudo começou. Como manda a tradição dos Perros, ela havia de perder a virgindade com um membro da mesma família que sua mãe havia perdido, mas como os Rodríguez eram todos adultos e as crianças haviam se tornado extintas, Marianne teve de perder sua virgindade com seu irmão, a única criança do sexo masculino viva. O pequeno Fagundes recebeu instruções de, pelo menos, trinta homens da aldeia, todos eles tremendamente orgulhosos do pequeno, que seria a salvação da aldeia dos Perros. Na primeira vez dos pequenos tudo correu maravilhosamente bem, apesar de ambos serem ainda bem crianças, era normal que todos na aldeia tivessem sua iniciação sexual cedo, afinal, era de suma importância que o sangue dos Perros permanecesse puro e que a espécie fosse preservada.

Passados os meses e as tentativas, tornaram-se pequenas e vagarosas as esperanças de toda a aldeia dos Perros, já que Marianne não ficava grávida de maneira alguma. Alguns homens cogitaram a veracidade da possibilidade de Fagundes engravidar Marianne sendo sua irmã, e assim desatinaram em discussões controversas que geraram grandes angústias tanto para Marianne quanto para Fagundes, pois ambos haviam apaixonado-se um pelo outro. Felizmente houve uma intervenção que botou ordem em toda a discussão que pairou no ar da aldeia dos Perros, que de tantos cochichos, acabou por criar um âmbar de murmúrios e ofensas que era escutado por qualquer um a qualquer hora do dia; o pajé Teodoro, como mais antigo membro deu a decisão final: os dois haviam de fugir dali para procurar uma cura para todo aquele problema junto à civilização ― mal sabiam eles que a civilização tinha mais problemas do que os próprios. Assim ficou decretado que a aldeia dos Perros havia de morrer germinando no mundo duas pequenas sementes de esperança, enquanto os homens aguardariam pela volta dos pequenos, e se não voltassem, estavam decididos a morrer todos como sangues puros de Perros.

Os dois pequenos caminharam mata afora rumo à estrada de terra, foram seis horas de caminhada sem cessar o passo até saírem da mata virgem e mais algumas três horas até que pudessem avistar, de longe, um pequeno veículo azul que vinha em alta velocidade. Os pequenos, acompanhados de alguns membros da família dos Carelli, aguardaram ansiosamente dando sinal para aquele veículo até que começaram a temer a alta velocidade daquilo que vinha em direção a eles ― e não demorou até que o pior acontecesse. Um pequeno buraco no chão riu para o mundo quando o veículo azul capotou meio ao nada, tendo como esperança de vida apenas a aldeia dos Perros. Os Carelli correram rumo ao veículo e verificaram se havia alguém dentro; o motorista, aparentemente bêbedo e de um cheiro inescrupuloso parecia dar seu último suspiro de vida e do lado dele, uma lindíssima mulher dos cabelos cacheados e louros com uma grande poça de sangue em sua roupa; por alguns minutos gritou as dores que sentia até que desmaiou. Os Carelli esforçaram-se para retirá-la com cuidado do veículo e adentraram outra vez pela mata virgem até a aldeia dos Perros; no meio do caminho murmuravam: “Tudo está salvo” e riam-se.

Chegando a aldeia dos Perros um grande alvoroço se fez sobre aquela mulher que se encontrava nos braços dos Carelli, alguns murmuravam: “Só pode ser um milagre”, enquanto outros entravam em um estado que mesclava o choque e a felicidade exacerbada e punham-se a dançar incessantemente. Um grande estado de euforia acometeu os homens daquela aldeia, o único que permaneceu são foi pajé Teodoro, cujo qual controlou aquele grande ataque de euforia com surras de cajado em todos os que se punham a masturbar-se enfurecidamente enquanto observavam a mulher inconsciente e ensanguentada na cama de palha. Depois de doze horas a mulher acordou dentro da oca do pajé Teodoro e quando o avistou assustou-se com o tamanho daquele homem e perdeu outra vez os sentidos, dessa vez por um tempo muito menor. Ao acordar já temia todo o âmbito que lhe cercava, mas mal ela sabia que o que se encontrava detrás da pequena porta daquela oca era um bando de homens loucos para fornicar com ela. O pajé Teodoro pensava enquanto observava-a acordando qual seria a veracidade da pureza do sangue dos Perros se aquela mulher tornasse-se a mãe criadora dos novos membros daquela aldeia, e por fim, interrogou-a:

― Qual o seu nome, pequena?

― Sou Zaccari, e tu, quem és?

― Sou pajé Teodoro, da aldeia dos Perros.

― E onde exatamente estou?

― Estás na aldeia dos Perros.

― E onde fica?

― Não sei ― riu-se ―, o que basta saber é que estás segura, sabe… ― disse, levantando-se ― encontramos-te, aliás, alguns membros da aldeia encontraram-te dentro de um veículo que capotou na estrada de terra, tu estavas do lado de um homem que morreu, os membros trouxeram-te e cuidamos de seus ferimentos.

― Ah, agradeço-te então, mas confesso… sinceramente ― e corou ―, não lembro de absolutamente nada.

― Curioso… bem, convido-te a ficar aqui conosco até ficares melhor ― disse, rindo.

A pequena porta abriu-se e lentamente os olhos de toda a aldeia dos Perros cresceram, o pajé Teodoro saiu e, por conseguinte, viu-se a belíssima figura de Zaccari, os homens murmuravam: “É linda”, “Ela é gostosa” até que o pajé Teodoro quebrou o silêncio:

― Pois bem, homens! Apresento-lhes Zaccari, a mais nova mulher de nossa tribo.

Todos comemoraram, rugiam, gritavam e dançavam; um grande ritual começou, os homens caçaram cerca de vinte e cinco porcos que assaram e comeram ferozmente por toda a noite e madrugada; a festa não cessou até que os homens se cansassem de sentir o cheiro daquela carne nova, sobretudo, daquela carne feminina. Zaccari despertou paixões sem sequer dar-se conta, mas apaixonou-se, enfim, por Fagundes; o pequeno garoto teve os seus passos observados e admirados pela doce e tão desejada mulher, Marianne, por outro lado, mal havia percebido. Em sua intrínseca tristeza pela inutilidade que parecia ser ao não poder dar continuidade a espécie dos Perros, acabou desligando-se não só de toda a festa que ali ocorrera, mas também de Fagundes. Ele, por outro lado, ligou-se demasiadamente ao fato de agora “ser adulto”, os homens introduziram-no a bebida, aos cantares e batucares que todo homem devia entender e dominar, Zaccari observava-o com enorme encantamento e, por muitas vezes, acabava por conservá-lo junto ao seu seio como um filho. Ao fim da noite, retornando para sua oca, Zaccari havia de escolher um homem cujo qual deveria levar para a cama.

Todos aguardavam ansiosamente a nominação do homem que mais lhe havia cativado o coração, e que segundo o pajé Teodoro, devia ser-lhe o homem mais fiel em toda sua vida, pois seria o iniciador de sua vida sexual dentro de uma nova vida: como uma Perros. E assim, quebrando a ansiedade de toda a aldeia, disse o nome de Fagundes. Todos o invejaram, e apesar de seu grande amor por Marianne, por sentir-se tão homem, Fagundes deixou-se levar por Zaccari, e, portanto, como escolhido para dar continuidade aos Perros, Fagundes deu a ela uma linda noite de amores; indiferentemente do fato de Zaccari ser muito mais velha do que Fagundes, o garoto amou-a e deu-lhe uma noite invejável, ouviam-se os gemidos por toda a aldeia dos Perros e todos invejavam o garoto como nunca.

Num canto, um Rodríguez chorava a morte de Driciele, noutro, os Carelli invejavam de modo tão intrínseco a existência de Fagundes que acabaram por não dormir a noite inteira com aquele sentimento voraz, e de outro lado, Marianne encontrava-se em profunda depressão; tão triste ficou pelo fato de não conseguir dar origem a um Perros que acabou tomando uma decisão perigosa. Encostada numa árvore ordinária longe da fogueira olhou para o céu estrelado e despiu-se, mergulhando junto ao rio naquela noite quente de sua décima segunda primavera. Um dos Cruzatto olhava calmamente todo o ritual da pequena, e observando sua tristeza, sussurrou ao rio, de modo que Marianne pudesse ouvir:

― Que há de errado, rio? Por que em ti há mais do que água pura da foz? Há lágrimas aqui também?

Marianne observou-lhe, ainda com a tristeza estampada no coração e riu-se, dizendo:

― Que há com um homem que chega a esta idade? Começa a falar a sós com o rio?

Um silêncio se ergueu, os grilos cantarolavam e observavam atônitos. Assim o Cruzatto despiu-se, mergulhando no rio, rindo-se e aproximando-se cada vez mais de Marianne, cuja qual apenas fechou os olhos e deixou-se levar tanto pela correnteza, quanto pelo Cruzatto. A noite se desfez.

No dia seguinte os murmúrios corriam soltos por toda a aldeia, todos os boatos giravam em torno da pequena Marianne, que, noite passada havia transado com um dos Cruzatto. O rapaz não demorou em espalhar a notícia e contar a todos que ela era a mais saborosa mulher que um homem poderia provar na face da terra, mas ninguém deu bola para o rapaz, todos desejavam incessantemente à grandiosa Zaccari. Com o tempo e as constantes tentativas de Fagundes para engravidar a Zaccari, perceberam que o problema, na verdade, não era de Marianne, e sim de Fagundes… e ao mesmo tempo mostrou-se que Marianne estava grávida do Cruzatto.

Um grande alvoroço tomou conta da aldeia, pois todos logo se animaram para o filho que Marianne havia de colocar no mundo ― e o melhor de tudo: havia de ser sangue puro dos Perros. Prolongados os meses de gravidez, Marianne deu a luz com o auxílio do pajé Teodoro, a uma pequena e linda menina que chamaram de Driciele em ode a sua mãe que havia deixado tamanho “tesouro” que era Marianne. Fagundes acabou por tornar-se inútil ali, assim como Zaccari, e tudo começou a desabar.

VERÃO:

Logo que Marianne recuperou-se do nascimento sua primeira filha, Cruzatto tratou de engravidá-la outra vez, assim, todos começaram a viver uma vida muito mais tranquila; Zaccari habitou-se aos afazeres da aldeia: todo dia cozinhava e tecia para todos os homens da tribo; Marianne dedicava-se única e exclusivamente de cuidar de sua primeira filha e também cuidava para não esforçar-se demais em sua segunda gravidez, pois todos queriam que seu novo bebê nascesse saudável… mas tudo logo mudou. Dados os meses de gravidez, Marianne deu luz a um ovo grande de cobra Viada; a aldeia toda se assustou e, mesmo com o susto não podiam desperdiçar comida, nem mesmo deixar que aquele ovo germinasse mais um exterminador de Perros, portanto, cozinharam-no comeram-no com grande tristeza e desgosto. Meses depois ao fato, enquanto Cruzatto tentava novamente engravidar Marianne, sentiu algo estranho enquanto transava com ela: uma pequena picada em sua glande, logo em seguida concluiu que era uma picada de Viada.

Não demorou em que toda a aldeia dos Perros acordasse para observar que o Cruzatto estava prestes a dar seu último suspiro de vida, e, em seu leito de morte, segurando a mão de Marianne, inspirou alguns últimos murmúrios e depois deixou o seu corpo para vagar pelo rio, onde se conservou sua alma; desde então, é possível ouvir Cruzatto conversar com o rio todas as madrugadas.

Naquela noite ninguém foi capaz de dormir, o pajé Teodoro pensou, pensou e pensou, mas não foi capaz de chegar à conclusão alguma. Nesta época em particular a aldeia dos Perros viveu tempos tempestuosos, apesar do verão, o rio havia se congelado, mas todas as lágrimas do Cruzatto tinham tornado o rio outra vez líquido e quente e graças a ele os Perros puderam sobreviver. Alguns homens toparam com a loucura em tempos tão horríveis, os Savio, por exemplo, passaram mais de dois meses cochichando entre si sem entrar em contato com mais nenhum dos Perros até que, certa noite, tudo implodiu.

De dentro da oca de Zaccari um grito arranhou a madrugada e ecoou até o amanhecer, este grito pertencia à alma de uma mulher que estava sendo estuprada por cinco homens. Os Savio estupraram Zaccari em um momento de desespero enquanto tentavam salvar a raça dos Perros; obviamente o pajé Teodoro não concordou com tal ideia e ordenou-lhes que parassem com o ato assim que pôde. Os Savio não foram punidos por isso, pois não havia punição dentre os Perros que não fosse aplicada pela mãe Natureza, “ninguém pode decidir por Ela, pois não há ninguém que possa ser Ela, e, portanto, tomem todos no cu”, disse o pajé Teodoro. Mas o tempo passou e os Savio foram morrendo, todos se encontravam em profunda depressão e recusavam-se a aceitar a realidade. Um dos Savio se recusava a acordar, e, acreditando estar em um sonho, pulou do Penhasco de Cotopaxi e morreu, sua alma nunca foi encontrada. Outro dos Savio morreu por desnutrição, pois se recusava constantemente a levantar-se ou a falar, morreu em silêncio, ninguém nunca soube o que se passou em sua cabeça após o estupro. O outro acreditava estar morto desde o acontecimento e dizia: “meus ossos estão todos quebrados, não há vida neste corpo, não há sangue correndo nestas veias, não há coração batendo neste peito… não há mais nada.”. Morreu sem ninguém nunca saber o porquê ― talvez já estivesse realmente morto. Os outros dois Savio jogaram-se juntos ao rio depois de muito tempo, seus corpos foram levados para longe e suas almas também nunca foram mais vistas.

PRIMAVERA:

                Dez anos se passaram. Marianne deu luz a outra menina que chamaram de Ortega e que era tão saudável quanto Driciele, mas o pior tornou a acontecer. Assim que os dias passaram, o primeiro gêmeo dos Carelli morreu da mesma maneira tal qual o Cruzatto, e como é lei, o segundo Carelli acabou por morrer logo em seguida, já que a mãe Natureza não permite que apenas um gêmeo permaneça vivo.

Logo Marianne tornou-se uma mulher de apenas duas filhas, pois homem nenhum mais tinha coragem de perder sua vida como o Cruzatto e os Carelli haviam perdido. Toda a aldeia acabou por tornar-se um povoado de velhos, duas crianças e três jovens; tudo só mudou quando o Rodríguez, que era apaixonado por Driciele, doou-se para procriar com Marianne e, por conseguinte, deu a Marianne seu primeiro filho homem cujo nome foi dado pela própria, era o primogênito, Paulo.

Aos poucos, desde o nascimento de Paulo, todas as famílias da aldeia começaram a extinguir-se, a primeira delas foi a dos Carelli, logo em seguida dos Cruzatto e, por fim, a dos Rodríguez, que acabou quando o último dos Rodríguez se suicidou. Restaram na aldeia apenas Fagundes, Driciele, Ortega, Marianne, Zaccari, Paulo e o pajé Teodoro, cujo qual acabou por tornar-se completamente cego, muito embora continuasse atento a todos os acontecimentos.

                Quando Paulo completou quatro anos de vida o pajé Teodoro deu-lhe um colar que havia feito com pequenos ovos de cobra Viada, isto era o que deveria protegê-lo de toda a desgraça que poderia pairar sobre ele. Paulo cresceu só, aprendeu suas necessidades sozinho e nunca mantinha muito contato com ninguém. Certa noite, ao acordar de um pesadelo deu de cara com Zaccari, cuja qual o observava dormindo e quando o viu acordar, indagou-lhe:

― Pesadelos, Paulo?

― Sim… dessa vez sonhei que uma cobra Viada olhava-me enquanto dormia.

― Tens medo de mim, Paulo?

― Não, sinceramente, a nada temo, senão as Viadas.

― Paulo… tu és tão novinho… hei de esperar-te crescer.

Zaccari deixou sua oca e pôs-se a observar as estrelas. A noite se esvaiu n’alvorada.

No dia seguinte, um grito arranhou o silêncio d’alvorada na aldeia dos Perros, era Ortega que, aparentemente, havia sido picada por uma cobra. Quando o pajé Teodoro chegou mais perto constatou que o mesmo mal que havia acometido-lhe a avó, havia acometido-a: uma picada de cobra Viada. Ortega faleceu sem nenhuma dificuldade, sequer agonizou, de tão fraquinha que era. Marianne sentia-se cada vez mais intimidada pelo destino que poderia acometer-lhe e começou a ter pesadelos. Nestes pesadelos, Marianne era obrigada por várias cobras Viadas a comer seus ovos e quando acordava sentia lancinantes dores em seu corpo inteiro. Certa noite, sob a mesma lua que um dia havia lhe alentado a iniciação sexual, atravessou o rio e correu rumo ao ninho de cobras Viadas procurando ovos para comer, pegou todos os ovos que ali tinham, cerca de trinta, colocou-lhes numa pequena cesta de vime e levou-os de volta para a aldeia e comeu-os todos, um a um, crus. N’alvorada seguinte, outro grito havia de arranhar o silêncio da aldeia, mas desta vez era de Driciele, acometida pelo mesmo mal que sua avó, do mesmo nome; adoeceu e demorou quase uma semana para morrer, murmurava quase sempre que algo lhe segurava em seu corpo, que alguém lhe empurrava constantemente a alma para dentro, até que não houve mais forças suficientes para aguentar a dor e, por fim, Driciele morreu.

INVERNO:

                Os dias se tornaram cinzas, o pajé Teodoro passava o tempo todo vagueando e dando encontrões com as árvores, os trabalhos haviam tornado-se esporádicos, Zaccari passava os dias admirando o céu, Paulo passava os dias ensimesmado em seus pensamentos, vagueava com os pés à beira do rio, Fagundes passava os dias cortando lenha para aquecer-se à noite e Marianne passava os dias em profunda depressão, aguardando que a qualquer instante uma cobra lhe traria o que tanto queria: a morte. Marianne voltava a ter os sonhos com os ovos e voltava a roubar-lhes e a comer-lhes, como se alimentasse uma cobra dentro de si; os dias passavam, as dores aumentavam e Marianne sentia-se cada vez mais incompleta, mais triste, mais perto da morte. Fagundes tornou a aproximar-se de Marianne durante este período, pois tinha ciência de algumas massagens que aliviavam as dores torácicas que acometiam Marianne, do lado oposto, Paulo havia crescido e aproximava-se cada vez mais de Zaccari, que contava causos da civilização; neste exato momento, o pajé Teodoro riu-se, entendendo tudo.

Certa noite, com todas as vidas trocadas em poucas semanas, Paulo teve sua iniciação sexual com Zaccari, enquanto do outro lado, Fagundes havia voltado para o lado de sua irmã. Zaccari já beirava os sessenta anos, mas tornou-se depósito dos amores sinceros de Paulo; toda a vida que havia vivido eram conversas com o rio, olhares com os leopardos, interpretações sobre os sonhos e a vontade de voar para o céu estrelado. Marianne só piorava e Fagundes sabia que ela estava para morrer, foi quando eles voltaram a praticar o coito; durante algumas semanas os ruídos que pairavam durante a noite na aldeia eram poucos: o pajé Teodoro colocando fumo em seu cachimbo, acendendo-o e indo dormir, Paulo transando com Zaccari e Marianne com Fagundes, mas nenhum deles produzia sequer um filho, no fim, quase toda a desgraça daquele lugar era a infertilidade dos amores e da vida, pois a terra dos Perros estava condenada ao silêncio.

Passados os dias, Marianne morreu com as dores lancinantes que tinha em todo o corpo e logo em seguida uma pequena cobra Viada escapou-lhe pela boca, fazendo jus aos sonhos que havia tido e as necessidades que vinha se encontrando. Fagundes se suicidou logo em seguida, abraçando-se com o corpo de Marianne e deixando-se levar e afogar pela correnteza do rio. A aldeia tornou-se, por fim, um lugar vazio meio ao inverno mais rigoroso que o pajé Teodoro havia de conhecer, e de suas palavras: “Esse frio não pode ser do Paraíso, tampouco do Inferno, mas… que vem depois do Inverno?”.

PRIMAVERA:

                Gentilmente a primavera chegou outra vez, desta vez a aldeia dos Perros tinha mais silêncio do que nunca ― mas por pouco tempo. Na primeira semana da primavera Zaccari descobriu-se grávida de Paulo, e, logo que a notícia se espalhou pelos três sobreviventes dos Perros, Paulo deu a Zaccari seu colar de ovos de cobra Viada. Tudo começava a, moderadamente, voltar ao seu normal, afinal, era primavera. O pajé Teodoro entregou-se a afazeres que só havia praticado quando começara a construir a aldeia, tudo o que o tempo havia arruinado ali, ele reconstruiu. Paulo voltou a caça e Zaccari aos afazeres domésticos. Tudo florescia em volta da aldeia dos Perros, toda a fauna e a flora crescia gradualmente e vestia o chão, as paredes das casas, tudo voltava a ser harmonioso como há muito tempo não era.

Gradualmente as flores morreriam e a aldeia dos Perros voltaria a tempos assombrosos, pois a paz dos Perros morava na primavera, eles eram flores que vívidas nasceriam e gradualmente caminhariam para o fim, mas poucos seriam capazes de sobreviver às pragas do tempo, a dança do viver… e mesmo que viessem a morrer, suas pétalas dançariam ao vento por toda a eternidade. Se um dia o vento parasse de soprar o mundo haveria de acabar juntamente com a existência dos Perros.

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

2 respostas para A estação depois do inverno [+download PDF]

  1. Bea disse:

    Genial.

Comenta aí, mano!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s