Guilherme Abreu

Pequena e doce criança… suas pupilas se dilatavam ao ver o mundo – e o mundo nelas podia ser visto. Essas, em carne viva, ainda não conheciam a maldade do mundo; que bonito era ver a folhagem alaranjada do outono, seguida pela textura rústica do tronco da árvore, suas mãos sensíveis recuavam rapidamente em meio às sensações causadas pelo que ele tocava; tudo foi lindo… até o colégio.

Em seu primeiro dia de aula, Guilherme Abreu sentiu o gostinho do que é a sociedade: subversiva, vingativa, perniciosa, deturpada e doente. Ao entrar na sala de aula, ele foi recebido com risos espalhafatosos que estouraram em um coral do escárnio; Guilherme, indefeso, um pequeno pássaro que se alimentava de minhocas mastigadas sentiu-se tremendamente intimidado e confuso: não entendia o motivo do riso, mas sabia que era hora de chorar.

No espelho sua imagem refletia um rosto moribundo, aguardando ansiosamente pela convalescença; Guilherme tinha vontade de viver, mas a sociedade impedia-o de viver sem ser julgado pelo que ele cresceu sendo: um garoto com bigode. Ele entendia que era diferente neste aspecto, mas não entendia porque tinha de ser uma piada para os outros garotos, afinal… os adultos tinham bigode, ele era simplesmente mais maturo, ainda que uma criança. Guilherme voltou para casa mais cedo do que o normal, seus pais já imaginavam e esperavam que esse momento chegaria, ensaiaram palavras, frases e leves apalpadas que, supostamente, acalmariam o garoto choroso. Era tão irônico o fato de Guilherme estar mais desenvolvido do que todos os garotos e ainda assim ser tratado como o sarro, sendo que ao mesmo tempo tudo o que as crianças desejavam era tornar-se um adulto. Possesso pela raiva, tornou-se tão maturo quanto aparentava e exclamou: “A minha moeda corrente será a sua”.

Voltou à escola e altaneiro observou cada aluno vingando-se categoricamente de cada um deles: para o gordinho, Joalfo, deu o bolo mais delicioso da história: banhado em urina e laxante. Para Bebeto, o garoto riquinho e orgulhoso, deu uma cagada dentro do tênis mais caro de todos os tempos e para Joana, a criança mais ortodoxa de todos os tempos, deu a Bíblia com muito cocô dentre as páginas. Assim, Guilherme ganhou posição no topo da hierarquia escolar; era respeitado, embora não fosse amado.

280º dia do ano Guilherme pôs os olhos em Lília, a garota mais linda de todo seu período epistemofílico. Em uma figura ilusória e imaginável era possível ver em seus olhos a imagem de sua mão desligando-se de sua mãe e tornando-se um homem completo e arraigado ao coração de Lília. Saudável, esboçou um sorriso ao vê-la e o recebeu de volta. Lília, entretanto, sentou-se junto das garotas que ele tanto odiara, tal qual era Joana.

Os dias se passaram, era quase o fim do ano letivo e Guilherme não sabia se voltaria a ver a figura fantasmagórica que era Lília. Arriscou aproximar-se e dedicar todo o sangue que corria em suas veias e que bombeava seu coração para dizer-lhe que estava então, realmente apaixonado por ela. Lília respondeu-lhe com o carinho de uma mãe e com o beijo mais doce de todos os tempos. Fez-se mar.

Durante a comemoração do fim das aulas, onde Guilherme havia firmado sua unção com Lília, algo estranho aconteceu: O casal havia se isolado em um canto da escola para se beijarem um pouco, Lília se abaixou e começou a tirar as calças de Guilherme, ele fechou os olhos por um segundo e quando Lília estava prestes a abocanhar sua glande e engolir por inteiro seu pequeno pênis ereto, ouviu-se um grito ecoar pela escola. Guilherme abriu os olhos e viu uma cena capaz de subverter, adoecer e deturpar: seu bigode estava lhe masturbando. Lília correu para longe, gritando, enquanto isso Guilherme tentava interromper seu bigode de levá-lo ao orgasmo mais traumatizante de toda sua vida. Não demorou muito para que toda a escola viesse ver o motivo do susto de Lília e, por conseguinte, zombar do picaresco destino de Guilherme.

Durante aquela noite traumatizante, na quietude de seu quarto e no caos de sua pequena cabecinha, Guilherme questionou Deus, ou como ele costumava dizer: “Papai do céu” os motivos de estar então… vivendo de tal maneira:

– Por quê? Responda-me, seu miserável filho de uma puta! Você deve estar curtindo muito né, enquanto eu me fodo por aqui: “Vou botar aquele molequinho na terra diagnosticado com um bigode, vai ser muito divertido, puta que pariu!”. Divertido né! Seu filho da puta! Vai ser divertindo quando eu enfiar minha piroca no seu olho!

**

Uma semana se passou e Guilherme tomava coragem para sair de casa novamente, motivado apenas pelo amor sacrossanto que sentia por Lília. Foi até sua casa e aguardou ansiosamente pela garota. A mãe de Lília atendeu-o, preocupada com a recente situação indagou-o com zelo perguntando como tudo estava indo, mas Guilherme foi forte, respondeu-a peitando qualquer tipo de medo que viesse a existir em sua mente respondendo-a que tudo estava indo bem – e mentindo. A mãe convidou-o para entrar e ele aguardou pela chegada de seu amor, cuja qual desceu as escadas com tamanha leveza que só podia ser comparada ao aterrissar de uma pluma no chão. Com muita cara de sono Lília esboçou um pequeno sorriso unilateral ao ver Guilherme novamente. Ele tentou começar a falar sobre o ocorrido e desculpar-se, mas foi amordaçado por Lília que lhe ofereceu o cheiro de uma pétala e um beijo anestésico. Entretanto, a harmonia não era assim tão bonita na vida de Guilherme. Dentre compassos e notas, de modo progressivo, surgia uma dissonância que viria a marcá-lo para sempre: seu bigode.

Domingo, como de costume em uma família cristã, Guilherme ia à igreja forçado por seus pais – até então. Durante o sermão do padre – cujo qual parecia não ter fim – Guilherme concentrava-se na arquitetura gótica que sempre o fascinara, observava tranquilamente quando foi surpreendido quando percebeu a movimentação de seu bigode, cujo qual desabotoara suas calças e o masturbara por dois torturantes minutos onde Guilherme passou de “anormal” para a atração do circo da vida. Enquanto tentava soltar o bigode de seu pênis, várias pessoas ao redor riam, enquanto outras, horrorizadas, levantavam-se e encostavam-se junto à parede como se Guilherme tivesse dentro de seu pobre coração um defeito; como se as lágrimas que caíam de seus olhos fossem de caráter diferente dos outros; tornara-se aquele monstro horrível, um bicho! O escárnio.

No silêncio de seu quarto, Guilherme tentava encontrar razão em meio a sua própria e tão intrínseca loucura. Ensinou a si mesmo como conviver em sociedade, adequou-se aos risos, ao escárnio, às dentaduras que tornavam aquele pequeno coração sem defeito algum um tipo de veneno fadado a matar pedaço por pedaço daquele pequeno ser vivo que era Guilherme. Mas de que adiantou? No mercado, na igreja, na escola… não importava onde, seu bigode curtia bater uma punhetinha.

Guilherme recebia o apoio de Lília, ela era a única razão de sua existência, era o seu sorriso, afinal! Era ela quem lhe contava sobre o dia que ele não queria mais ver, era ela quem o curava daquilo que ele não queria mais viver… Lília era, foi e sempre será o antídoto doente de sua vida. Aos nove anos, Guilherme afastou-se da escola e começou a estudar em casa com seus pais.

Certo dia os pais de Guilherme saíram para ir ao centro da cidade, ambos pretendiam contratar um psicólogo que seria seu “professor de Filosofia” disfarçadamente. Eles tinham fé em Guilherme; jovem esforçado, egocêntrico, vencedor! Eles queriam-no de volta ao mundo, eles tinham feito um bom trabalho. Entretanto, os pais de Guilherme não apareceram em casa, quem apareceu foi um policial que bateu na porta da casa do jovial Guilherme informando-o da mais prematura lágrima de sangue que havia de cair em seu rosto surrado pela vida. Os pais de Guilherme morreram em um acidente de carro. Guilherme apagou.

Acordou em seu quarto e por um breve instante pensou: “Foi só um sonho”, enquanto observava seu quarto e a cada passo que dava, sentia uma pontada em seu coração – agora parecia apresentar defeitos. Olhou pela janela, o carro não estava na garagem, havia uma van cinza, ouvia-se barulhos vindos do primeiro andar, ele estava deitado com seus sapatos. Nada disso era normal. Desceu as escadas e deparou-se com uma mulher negra de olhos grandes e de pele torturada, indagou-a, queria saber quem era ela afinal. Seu nome era Joana – familiar para ele – e ela era assistente social – Guilherme arrepiou-se – já imaginava que a morte de seus pais era realmente verdade… e era.

Guilherme já não podia mais ficar naquela casa, ele ia para a casa de seu tio João e sua tia Boaventa. Guilherme foi afastado de Lília; fizeram-no perdê-la de vista, não só com seus olhos verdes, mas com seu coração vermelho que bombeava por seu corpo um veneno que o mantinha vivo. Que seria de Guilherme sem o seu único motivo para viver? Guilherme estava certo de que daria um fim em tudo isto; não seria possível viver sob tais circunstâncias. Em seu último encontro, seu último tango com Lília, Guilherme viveu intensamente as dissonâncias que ressurgiam de suas dermes, epidermes e hipodermes que já estavam se enferrujando. Chorou, chorou e chorou! E que tristeza era essa… o último tango: o tristango. Talvez a mais profunda e horrível dor que havia para sentir nessa face terra! E como tudo se tornava branco e preto ao imaginar que nunca mais seguraria a mão suada e inquieta de Lília… e pensava sobre como havia conhecido-a, como viveu, como viveria… como deveria ser. Lília sussurrou as últimas palavras em seu ouvido em meio a um berreiro infanto-juvenil que arranhava o silêncio de uma rua de família. Tais palavras não fizeram com que o choro de Guilherme viesse a se agravar, mas fizeram um abraço tornar-se a bruta força de alguém que força o fechar de uma porta. Guilherme deixa sua cidade.

**

Vinte anos se passaram, Guilherme continuara na batalha da vida, seus tios já estavam velinhos e Guilherme já havia se mudado para a garagem. Lá, encenava uma peça de teatro toda a noite, cuja qual já se encontrava em exibição por vinte anos. Em seus sonhos, a última nota a tocar era sempre a mais dissonante – e a mais perto de sua “realidade”. Esta, já não era mais o que ele queria. Tudo o que havia reprimido, tudo aquilo que ele sempre quis e viu longe de sua realidade estava realizado nos sonhos e pesadelos, pois até neles – os pesadelos – estava um sonho. Em mais um dia de trabalho, Guilherme descobre o “além” da parede que Jung pregava; suas paredes divisórias com a sociedade estavam tomando forma transparente. No trabalho, uma nova chance de ser feliz: uma moça bonita é a nova funcionária.

Guilherme decidiu-se: antes de voltar ao mundo que tanto amara, quis acabar com o seu sofrimento: resolveu cortar seu bigode fora. Almejando viver o objeto idealizado em sociedade, manejou com calma um objeto pontiagudo e afiado a fim de cortar tal desgraça que viera a esmagá-lo de forma tão brutal e inconsciente, mas por um segundo viu seu destino mudar; desta vez o bigode provocou um sério desastre ao tentar impedir que Guilherme cortasse-o: ele teve os seus dois olhos perfurados. Em um momento de pânico, chorando lágrimas de sangue, Guilherme sentiu a dor e conheceu a realidade dos sonhos em seus olhos – que agora só enxergavam um vermelho desfocado e lantejoulas do âmbito que o cercara. Guilherme foi levado ao hospital por seus avôs e lá ele teve a notícia de que não poderia mais ver o mundo como antes: com seus olhinhos verdes. Agora, um pôr-do-sol e uma alvorada resumir-se-iam em uma imensidão negra. Foi difícil voltar para casa, adequar-se ao escuro, ao nada, ao niilismo. Sua vida havia tornado-se, definitivamente, um vazio cheio… sua vida estava fadada a acabar. Aos poucos, Guilherme foi conhecendo cada vez mais a loucura, mergulhava todo dia em uma interminável depressão, num poço que ele cavava com as próprias unhas, de modo que os dedos chegavam a sangrar e as unhas praticamente extinguiam-se, as pontas de seus dedos doíam diariamente, mas nada disso chegava perto do que sentia dentro de si mesmo. Guilherme ficou doente e permanecia boa parte dos dias em um estado de delírio, deitado junto ao sofá e perdido meio ao que lhe alentava e nada lhe mostrava: o escuro, a solidão, o nada. Lília era um pensamento que lhe assaltava sempre e que lhe causava algo estritamente curioso: em acessos de delírio que se relacionava com a imagem de Lília, Guilherme punha-se a andar com a ideia de que seu bigode lhe guiaria como Deus, acabou por assustar a todos em uma situação, em um acesso de delírio que o levou a quase morrer: Guilherme atravessou a avenida e foi atropelado. Seus tios nada podiam fazer por ele, ambos eram velinhos, inúteis, tanto quanto a sanidade de Guilherme. Assim decidiram por mandá-lo para um sanatório.

**

Era o primeiro dia de Guilherme Abreu – que agora se mantinha completamente fora de si durante o dia – no sanatório. Perambulava pelo consultório e a área de diversão com a ideia de que seu bigode guiá-lo-ia para Lília. Acabou por esbarrar em uma pessoa que não lhe chamou a atenção – era usual esbarrar em qualquer coisa -, mas Guilherme havia chamado à atenção desta pessoa, que pôs a indagar Guilherme:

– Um bigode! Ó, mas que bonito tu és, que lindo és teu bigode…

– Sei eu, se sei! É ele que me conduzirá para Lília, meu pequeno amor, meu doce e pequenino amor!

– E quem Lília é? A quem pertence este lindo nome… e a quem pertence esse coração que tu tens dentro de ti, ó rapaz?

– Pertence a esta garota que te disse o nome, Lília; tem os cabelos louros, foi minha companheira quando era eu um pimpolho, ó era! E como éramos felizes… se éramos!… e deveríamos ser.

Guilherme pôs-se a contar toda a história de sua vida a esta garota, vários outros doentes aglomeraram-se para ouvir a história de Guilherme, e a todos encantou, não só pelo seu bigode, mas pela imagem que construiu de Lília, que não era nada real. E enquanto tentava terminar sua história, contava-lhes o momento exato em que havia se separado de Lília, e o momento exato em que ela havia cochichado-lhe algo ao ouvido; eis que surge, pois bem, a mesma voz que antes havia interpelado seu caminho meio ao sanatório, a completar-lhe a história:

– E disse-me ela, disse-me bem ao pé do ouvido, com aquela voz quente, com todo o amor que eu sabia que sentia ela por mim, disse-me:-

– “Não há espírito que vá se esvair, se assim permanecer: calmo e quieto em meio ao tempo. Não há vontade que vá falecer, se assim permanecer: vívida e reluzente em meio ao tempo. E não há criança que vá deixar de existir, se assim permanecer: vívida, calma e liberta do tempo.”.

Eis que brota um sorriso meio ao rosto pálido de Guilherme, eis brota uma lágrima meio ao rosto de Lília, ambos totalmente perdidos, calmos, vívidos e libertos do tempo… perdidos na loucura e no doente ato de viver, pois não importa o quão doente for este amor… sempre será a única maneira de manter-se vivo, calmo e liberto do tempo.

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2 respostas para Guilherme Abreu

  1. marcelosofo disse:

    Muito foda mano! Sem palavras!

Comenta aí, mano!

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