Raconto de Fevereiro

Onde estará “Crime e Castigo” do maldito Dostoiévski? Maldita seja também esta livraria desorganizada! Sucedera que de tanto procurá-lo (o livro), causara-me uma dor de cabeça irritante e resultara em mau humor. Procuro abrigo para as minhas costas, sento num banco encostado à parede amarelada e descascada, olho para o teto e glorifico a construção gótica do recinto, enquanto tentava esquecer “Crime e Castigo” pensava em algo para rabiscar no caderno. Aconteceu que, após puxar o caderno, deparei-me com um idiota que atravessava nu o vestíbulo e corria para o fundo da biblioteca sem avistar-me:

“Sucedera que, de tanto irritar-lhe – o mundo – a garota de cabelos ruivos, esmaecidos, sedosos e vívidos buscou ao seu redor algo para observar e cativar – ou ser cativada por – e deparou-se com um homem nu, muito embora não lhe fosse bonito a olhos nus – riu consigo mesma. Não havia-lhe cativado em si o homem, mas a situação cuja qual se encontrara, afinal, era um homem nu atravessando às pressas o vestíbulo de uma pacata e abandonada biblioteca. O homem correra para o fundo do recinto, dando a impressão de que fugia de algo – e pois bem! Pôde concluir tal tese poucos segundos depois, quando avistou uma jovem moça loira, de cabelos largados ao vento e de beleza um tanto contestável, tratava-se, talvez, de sua namorada? Pois bem, não sabia. Os pormenores da biblioteca começaram a chamar-lhe a atenção e assim distraiu-se do caso que antes havia-lhe intrigado, observava o amarelado, as manchas da umidade na parede que encontravam-se com rachaduras e um resto do que devia, anos atrás, ser algo simbólico para a arquitetura. Um grito arranhou o silêncio:

― Pois bem, ora quem agora está a esconder-se! Tal qual, não é… pois bem me lembro! Trata-se daquele ser repleto de hombridade que antes – e bem me lembro! – maltratava-me o coração… ah se não és tu, eu sei que és tu. Reconheço nos olhos! Olhe para mim, besta!… pois bem, reconheço esses olhinhos, agora parecem tão assustados e infantis, tão medíocres… tão, tão, tão melancólicos, como se pudessem, a qualquer instante, saltar em lágrimas… eu sei que é tu, ó homem… posso ter perdido um pouco de minha sanidade, mas não o suficiente para esquecer desses olhos, lembro… lembro muito bem as noites que passei em claro, lembrando a tua doce mãozinha, essa que cá agora acolho e deslizo por esse corpo que um dia foi teu, muito embora não soubesse usufruir dele com carinho, com amor. Sentes? Sentes? Esse é o meu coração, ele bate, não? Tenho certeza que bate. Bate vívido? Acho que não… parece bater fraco hoje, parece-me surrado, arranhado e murcho… parece-me tão velinho e a vida parece-me tão sofrida… Oh, em que armadilha caí eu?! Sabes tu? Pois bem eu sei! Trata-se da armadilha que tu tiveras em mãos! E agora, pois bem, tenho a minha.

Assim sucedera e o caos tomou conta da biblioteca, o homem correndo e a moça atrás, chutando-lhe o que era possível, e vociferando obscenidades como uma bêbeda. Livros caíam ao chão e prateleiras também, a biblioteca surrada e velinha, que se encontrava abandonada em um ponto alto da cidade começou a tomar vida em muitos anos – e tudo parecia ser graças ao amor. O rapaz, afoito e cambaleante das pancadas que havia levado correu até uma grande porta marrom e ela pôde abrir:

― Que belo é o cenário! Itália… uma pequena biblioteca – assim começara a falar em tom malevolente, indo em direção ao rapaz e revelando a paisagem que se escondia por detrás daquela porta – em um dos pontos mais altos da cidade… no que poderia resultar, senão na belíssima vista do mar mediterrâneo?! É o que se encontra atrás de você, meu amor. E mais! Muitíssimo mais! Não se trata apenas do zéfiro que sopra à beira do mar mediterrâneo, vês? É perfeito para o amor. Levanta-te do chão, olha comigo, observa comigo a calma imensidão azul deste mar que hoje nos acolhe, que hoje suspira e embala o nosso amor a ressuscitar… não é isso que tu queres? Pois bem! Hoje é a chance, por definitivo, hei de ressuscitar nosso amor! E não haverá força hercúlea o suficiente para derrubar-nos… não haverá força hercúlea para separar-te de mim, não haverá! Venha comigo – ofereceu a mão ao rapaz que pairava no chão – vamos observar o mar.

Durante quase todo o tempo em que ouvia a moça falar, o homem tinha o rosto arrasado por lágrimas e no fim, sucedera que se encontrava a soluçar como criança de tanto chorar, dava dó vê-lo, nu, jogado ao chão aos prantos enquanto a moça, subitamente, parecia mudar de comportamento. Segurou a mão dela e seguiu, ainda amedrontado e desconfiado, até a beirada da varanda de pedras da biblioteca. A moça sussurrava-lhe ao pé do ouvido e beijava-lhe de modo doce, aos poucos contornava seu corpo nu em um abraço reconfortante, muito embora ele ainda permanecesse imóvel, sem ação e com os braços junto ao corpo. Em uma fração de segundo, a moça deixou de pousar o rosto em seu ombro e olhou-o nos olhos, dizendo-o:

― Vês como tudo pode acabar? Vês como tudo pode começar? O mar é a prova disso. Estamos cá, juntos novamente, começamos de novo! – e subiu na beirada da varanda – vês… sente! Essa é a brisa que alenta o meu novo ser, sou eu, o amor de novo… o coração, sentes? – apertou a mão do rapaz contra o seio – agora parece bater melhor? Suba aqui comigo, venha – ofereceu-lhe a mão novamente até que ele subisse – vês?

Olhou em seus olhos e fechou-os, beijando-o e deixando deslizar no rosto uma lágrima que se juntou ao mar. E assim os dois pousaram calmamente de mãos dadas em direção ao mar mediterrâneo.”

Enquanto fechava o caderno com os olhos serrados e a boca seca, pude sentir passar por mim um vento brando que oprimiu o acordar, sucedera-se que não desejava abrir os olhos e ver se aquela porta marrom encontrava-se ou não aberta.

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2 respostas para Raconto de Fevereiro

  1. Aborted Fectus disse:

    Você aprendeu a pavara “sucedera” ontem né? Ahh bom.

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