Sobre o azul

Já martelava na minha cabeça uma grande dor, estava cansado… não havia dormido muito bem. O relógio marcava 17h45min quando deixei o trabalho, muito embora não tivesse andado muito. A caminho de casa, podia sentir o frio do começo de noite, estava tudo completamente azul.

Uma aquarela pintada no mundo inteiro – ou nos meus olhos esperançosos e esmaecidos pelo frio. Sentia esse frio agradável que assaltava-me de forma tranquila como um suspiro ao pé do ouvido, o sussurro de uma moça bonita durante a noite mais serena e aveludada. Caminhava lentamente como notas de um trompete na partitura.

Havia uma conexão entre meus pés, olhos, braços e suspiros. Havia um tipo de combinação que me lembrava uma música:

“It seems so much more than just words”

O pé, um contínuo bumbo que, com os braços intercalava um baixo extremamente sexual; s olhos eram como um rhodes, a cada piscar eu sentia a mudança de um compasso para o outro, um toque suave no teclado, massageando tecla por tecla com um discernimento incrível; não haviam escalas, não haviam acordes, apenas notas sinceras que entreolhavam-se. Meus suspiros eram notas do trompete lindo, chegava a lembrar-me Chuck Mangione, com seu sentimento intangível, suas notas incrivelmente adoráveis, afundava-me na mediocridade ao ouvi-lo, pois sentia que nunca seria capaz de expressar-me tão belamente com um instrumento.

Entretanto, sentia a ausência de uma voz feminina, aquela, sussurrando ao pé do ouvido:

“I can’t hardly wait to hold you, feel my arms around you”

Havia uma sobreposição: pés, braços, olhos e suspiros. Vislumbrava uma penumbra que começava a se formar e aproximar-se de meus pés. O frio novamente tomava conta de mim, agora no sussurro virulento que deturpava minha sanidade. Era fantasmagórico, sublime, como se n’uma noite houvesse mais de uma lua – e de fato havia. Caminhava lentamente e observava uma nova luz tomar conta do céu. Empírico.

Abraçando com todas as forças um momento sacrossanto, vivia tranquilamente o sabor mastigável de minutos que se tornaram horas. A lágrima de uma criança qualquer seria capaz de encher uma piscina, a maledicência era não só intangível como irreal, pois, por segundos morava em meu pensamento apenas o puro. Gestalt.

A moça que caminhava junto a mim… não era ninguém. Puramente imaginável, sob o olhar dos letreiros luminosos de uma loja de conveniência, aprazível, balbuciava:

“It takes my breath away”

Sentado, solfejava junto ao vento da noite entreolhando o tempo. Já haviam se passado cinco minutos e minha casa era a quinze minutos do trabalho. Perdi-me em devaneios do ronronar amoroso.

Eu era patético… num pequeno caminho de terra, sonhei com um músico milenar e defronte a uma loja de conveniência, em um letreiro luminoso sonhei com a chorável vista de Tóquio à noite. Pateticamente apaixonado pela vida, sentia necessidade em viver mais, mais e mais. Acordar, trabalhar, dormir e comer não bastava.

Na verdade eu era a música, a vida era o encontro de contrapontos, eu era a lágrima mais imbecil da solidão, era o frio apartado da união. Como a última nota do piano, eu era o último impulso do sexo. Implodindo o amor dentro da aquarela… éramos o impressionismo, o suprematismo… mas no fim, éramos o naturalismo.

No fim… era só a vida.

Quinze minutos haviam se passado.

p.s: Texto provavelmente do ano retrasado ou passado, também baseado em uma música que ouvia enquanto escrevi:

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4 respostas para Sobre o azul

  1. Ana Beatriz disse:

    Adorei a forma como expressou os sentimentos de acordo com a cadência da música.
    Emocionante i.i

    .kisses

  2. marcelosofo disse:

    Um texto para se ler antes e depois de se ouvir a música. Só para sentir as sensações e interpretações diferentes.

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