Watercolors

Texto recentemente publicado no fanzine do projeto “I-hómi”

Hoje, n’alvorada úmida póstuma ao dia choroso que fora ontem eu chorei a saudade. Cuidei, ao olhar meu, uma poesia constituída de lágrimas, cujas quais hoje dedico a aquilo que um dia me trouxe um sorriso no rosto. Eu era apenas uma criança, não sabia que o destino árduo da vida chegaria a me trair de forma tão honrosa! De ter vivido… de ter vivenciado! E de poder, hoje, anos e anos depois, saudar a saudade.

Envolto por meu cobertor cinza e preto sentei-me na mesma cadeira que um dia serviu de assento a um amiguinho de apenas cinco anos. Coberto, tentando não revelar parte alguma de meu uniforme a brisa gelada da alvorada, quase que em posição fetal, encontrei um conforto em meu próprio ombro. Na solidão e na necessidade de meu próprio ombro, deitei com as orelhas diretamente na pelugem que me protege do frio. Fechei os olhos, calmamente – um, dois, três.

Apartei-me, tornei-me outro, um pinguim em meio ao ártico, perdido, tornei-me depósito de confiança de mim mesmo, contei e sussurrei ao pé do ouvido que eu queria o amor. Que eu queria de volta, tudo aquilo que um dia me fora tirado.

A começar pelo doce barulho do mar, que incrivelmente, alcançava os ouvidos cansados e franzia a testa de um homem aflito; fechei os olhos. Ouvia o vai-e-vem das ondas do mar, imaginava-o soletrando letra por letra ao pé de meu ouvido, quase que, gritando ao mesmo tempo o quão magnífico foi o tempo em que eu pude vê-lo de uma janela. Há anos atrás enquanto eu acordava, por dentre frestas de uma janela entrava a brisa; arrebicava em mim uma semente que me fazia brotar no peito um floral de gotas de orvalho. As mesmas caíam quase que cometendo um suicídio de meus olhos. Libertavam-se, encontravam-se com o ar; o doce ar, após um período de ostracismo, banidas em uma série de viagens, chegaram aos meus olhos, caíam, felizes! E eu, a chorar de alegria…

Ainda com os olhos fechados, ouvia buzinas na estrada; lembrava-me das noites difíceis de dormir em Tatuí, em que, os caminhões eram a música; compunham o silêncio com prudência e provocavam em mim, o que hoje se tornou a nostalgia. Mesmo que, na mais estúpida e comum buzina… eu encontrei conforto e saudade daquilo que um dia vivi. Dizem que nunca estamos satisfeitos… e eu não quero nunca estar satisfeito. Quero poder chorar e cá no meu peito fazer novamente brotar, essa vontade insolúvel de lembrar, de ser inerente a vida, ao sorriso, às lagrimas… ao amor.

Quero viver com o tal amor, quero que no meu coração não more uma confiança, e sim uma pluma, que de tão leve… voaria para longe no primeiro sussurro da garota amada e com os olhos abertos, voltei para o meu lar… ainda sem o meu lar, pois todo o ombro se tornou um catafalco… e o teu sorriso encolhido pela timidez e as cócegas tornaram-se um motivo para viver.

Datado em Maio de 2011 do livro em processo: “Mnemônico”.

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