O forro

Não havia resquícios daquilo que eu tinha acordado, provavelmente um pesadelo… acordei temendo o forro.

O rádio relógio marcava 04h32min da manhã; eu, sozinho, temia o forro.  Olhei para o teto, uma luz alaranjada parecia aleitar um ser que me dava calafrios, eu sentia alguém no forro. Meu coração apertou-se, tomou conta de mim um prisma alaranjado que atravessara meu peito, perfurara-me a sobriedade que eu agora não conseguia mais encontrar. Achava-me, realmente louco. Esquizóide, paranóide.

Olhei pela janela, vi o poste de luz alaranjada e exclamei: “Deve ser só a luz do poste”. Tentava concentrar-me em outra coisa, temia ir ao banheiro… a tampa do forro era lá. Liguei a televisão, ótimo… desenhos.

BAM! Um barulho toma conta do meu quarto. O coração teme. Receio olhar para o teto, receio encontrar nele uma retina que me observa… esquizóide, paranóide.  Acreditava aquele ser um passo no forro, acima, por cima, furtivo, a olhar-me, controlar-me… Eu era uma marionete… a marionete daquele no forro.

Levantei-me prezando pelas luzes acesas de minha casa invadida, andava cautelosamente. Sentei-me à mesa, tomando um copo de desespero procurando por frestas e sinais… faltava pouco para que essa respiração ofegante estourasse em um coro de socorro ao telefone.

Sozinho, com a casa apartada e arraigada ao onírico, só eu permanecia acordado, temendo algo que eu não via lógica em temer. O vento ofuscava a respiração, os sinos batiam, as rajadas banhadas pela lua cheia aumentavam o ritmo. Eu estava prestes a morrer sufocado por temer o incerto.

Já era hora desse sofrimento acabar, empunhei em mãos uma escada, n’outra uma lanterna, e ao subir para o forro, o coração na mão oposta. Posicionei a escada, estava cada vez mais perto, minhas mãos empurravam o pequeno pedaço de madeira que se integrava ao resto do teto, acendi a lanterna, minha cabeça se recusava a entrar por inteiro. Pouco a pouco, maculei-me no medo, eu não sou louco! Admito… um pouco louco.

Observei o forro, escuro, empoeirado, a lanterna revelava que não havia nada, se não poeira, virava-me! Louco! em busca de alguém… de algo! Nada… nada além de nada, somente nada. Desço os degraus. Um, dois… três… na minha cabeça sinto um frio, unhas tomam conta de meu rosto, gigantescas, grotescas, grito: “Eu não sou louco!” – baqueei-me ao chão, perdendo a consciência.

No chão do banheiro, a vista embaçada, os olhos mirando o forro aberto e a alvorada nos meus olhos. Tenho certeza de que aqueles olhos azuis em meio à escuridão me olharam profundamente n’alma… tenho certeza.

Eu não sou louco.

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

5 respostas para O forro

  1. Emily disse:

    belo thriller! e a trilha ilustrou bem o clima de suspense, terror e imaginação. a realidade é o que a ilimitada psique humana pode criar…e o imaginado se torna real…..

  2. Sargento Pincel disse:

    Não és LOUCO, e SIM VIADINHO. Pode ser também BAITOLA, BOIOLINHA, essas coisas… se foder.

Comenta aí, mano!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s